Olá
Quando acordares
diz baixinho: – Olá!,
ao travesseiro.
Olha para o lado:
olha os olhos:
deixa para lá
o travesseiro.
Não: não
lhe digas olá: olha.
E quando olhares muda.
Existem
gestos no meio dos olhos
que sufocam:
repressões sufocam-se.
Matam-se! Assassinas…
Delas.
E eu vivo.
Acordei
e mudei
e não disse olás:
amei olhares
que me fizeram cair
para trás
num sem número de almofadas
forradas a Amor.
Porque dizer e acordar e mudar
e tudo-olás-verbos
não implicam um não-Amor.
Porque esse não está.
E o outro
veio comigo…
E já cá estava.
Há Olhar
Há
coisas perfeitas
redondas
de metal
reluzente
Há
coisas
Estranhas
Há
candeeiros
que não iluminam
à luz
do dia
Há
verdes dançantes
por uma só música
que só eu
posso
ouvir
Há
o sol
que se esconde
Há
paredes-muros
cinzentas
que separam
Há
escadas
que cansam
Há
do outro lado
sorrisos
que abraçam
Há
a luz
sob os gritos
do guarda-sol
Fechado
Há
medos
que engasgam
Há
barrigas
de onde
nascem
Pequenas
coisas
insignificantes
Importantes
insignificantes
coisas
Há
a boca
o umbigo
Há
as máscaras
penetrantes
Olho
adentro
Há
o vidro
sujo