Perfume
Dá-te com a língua nos dentes, cabrão. Desabafa o que te prende ao pulmão o fumo queimado do cigarro. Vomita a massa de tinto do vinho, encabeçada nos cogumelos estragados, na carne roída do cão de olhos de entrega. Vá: desembucha os dentes podres; arrota a ocasião. Abre o livro, cabrão. Desenha-me aqui os traços de ti, animal. Horroriza-me: deixa cair os bolsos. Prende-me a atenção nos teus olhos anémicos. Mostra-me a tua sexualidade mole. E o chuto fraco, enrolado, na bola de trapos das mãos dos meninos que nunca brincaram. Esfrega a meia com o nariz; lança-a ao mar.
Dorme, quentinho. Bons sonhos.
[que morras.]
Tudo era diferente
Desta vez, tramei-o bem! Foquei-lhe a mão, os dedos vibrantes pela serra eléctrica em labor. Enfiava-os boca adentro. Tudo para cima, para os lados era conhecido: a luz, a parede, o tecto, a bata. Decidi-me por um filme mais chocante: mutilavam-me dente boca adentro – ou curavam-no: é tudo o mesmo –, fotografia por fotografia, imagem por imagem.
Uma seringa, mais cedo, impedia-me agora dos horrores das dores no osso, no nervo; o transpirar, a lágrima e o grito olho e goelas fora. O barulho era de quem corta o ferro – quase ouvia a forja, lá no fundo. O homem não tinha boca, nariz, nem bigode: era só uma mão, os dedos, a serra do ferro nos dedos, e uns olhos atentos, a não ligar aos meus.
Podia dilacerar-me todo o buraco, não sentiria. A boca estava em coma, com uma garganta a adormecer. Respirava um espirro há tempos, numa comichão desenfreada de unhas atadas, hesitante. Era possuidor de um maxilar que estaria, por certo, no final, irremediavelmente torto ou aberto para sempre.
Já nem um rebuçado me dão.
