Quanto tempo me leva
escrever um poema,
é quanto tempo me dura
uma paixão,
uma palma escorregadia
a rasgar
um tijolo, uma parede,
o chão:
Leva-me um soluço.
Já sobre o coche de ébano estrelado
Deu meio giro a Noite escura e feia:
Que profundo silêncio me rodeia
Neste deserto bosque, à luz vedado!
Jaz entre as folhas Zéfiro abafado,
O Tejo adormeceu na lisa areia;
Nem o mavioso rouxinol gorjeia,
Nem pia o mocho, às trevas costumado.
Só eu velo, só eu, pedindo à Sorte
Que o fio, com que está minha alma presa
À vil matéria lânguida, me corte.
Consola-me este horror, esta tristeza,
Porque a meus olhos se afigura a Morte
No silêncio total da Natureza.
Soneto publicado no tomo I das Rimas (1791), de Manoel Maria de Barbosa du Bocage