strawberry fields forever
As últimas folhas de 2006 pertencem aos Beatles – aqueles que alimentam os meus demónios interiores das preferências, às cabeçadas com Pink Floyd, mas que não são comparáveis porque os sentimentos são distintos. Ando a passear entre o ‘Abbey Road’ (1969) e o fresco ‘Love’ (2006). Há um tema que não me larga: I Want You (She’s So Heavy) – como aconteceu também recentemente com Helter Skelter… Não estou só encantado: estou preso.
O meu ponto final em 2006 tinha que ser com música. Tinha. (ponto)


Abbey Road, The Beatles (1969) Love, The Beatles (2006)
umbiguismo
É uma acção umbiguista esta, pois é. Mas não resisti: por alguma razão absurda das minhas vontades, fiquei satisfeito quando vi isto. Não por uma sexta terceira segunda posição duvidosa (os outros blogues não estarão em grande forma, pela certa…), mas porque numa mesma tabela, num mesmo espaço, me vejo ao lado da grande Instituição Coxeana, amigos cada vez mais queridos, com os quais vou colaborar como cronista do seu espaço online já a partir de Janeiro – espera-se…
Fiquei com um sorriso; sim, fiquei.
p.s.- a imagem foi actualizada: umbiguismo por umbiguismo, ficamos com uma classificação melhor – a primeira imagem pode ser consultada aqui.
p.s.2 – pronto, é verdade, estou a divertir-me a actualizar a tabela – é o expoente do umbiguismo (a segunda imagem pode ser vista aqui).
«Existir não é pensar: é ser lembrado.»
(Teixeira de Pascoaes, 1998. Aforismos. Lisboa: Assírio & Alvim)
urdir
Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
Há-de flutuar uma cidade no crepúsculo da vida
pensava eu… como seriam felizes as mulheres
à beira-mar debruçadas para luz caiada
remendando o pano das velas espiando o mar
e a longitude do amor embarcado
por vezes
uma gaivota pousava nas águas
outras era o sol que cegava
e um dardo de sangue alastrava pelo linho da noite
os dias lentíssimos… sem ninguém
e nunca me disseram o nome daquele oceano
esperei sentada à porta… dantes escrevia cartas
punha-me a olhar a risca do mar ao fundo da rua
assim envelheci… acreditando que algum homem ao passar
se espantasse com a minha solidão
(anos mais tarde, recordo agora, cresceu-me uma pérola no
coração, mas estou só, muito só, não tenho a quem a deixar.)
um dia houve
que nunca mais avistei cidades crepusculares
e os barcos deixaram de fazer escala à minha porta
inclino-me de novo para o pano deste século
recomeço a bordar ou a dormir
tanto faz
sempre tive dúvidas de que alguma vez me visite a felicidade
Al Berto
escabeche
Se os homens fossem cães
Fragmento:
«Ele carregava uma matilha de cachorros no peito, via-se na cara. Deviam uivar minuto a minuto, pelo sono dentro, a qualquer hora. Sorria, sorria quase sempre, mas nós apercebíamo-nos dos rafeiros a latir ao fundo do sorriso. Compreende? Quem é que sabe as porcarias que se escondem no sorriso de um gajo? Um gajo como o senhor, como eu? Naquele sábado, farto de tamanho canil em rebuliço, muniu-se de flores e veio celebrar a memória, que é a única coisa de sagrado na vida de alguém. Em seguida, está-se a ver, adeus crepúsculo, cuida-te mundo que parto para não regressar. Um tiro, uma imperial. Tão simples, amigo. Não acha?»
(José Manuel Mendes, 1997. O Rio Apagado – acasos e travessuras. Porto: Campo das Letras)
falda
uma história que começa pelo fim
[Estive uns dias parado, mas agora o hiato acabou – para o bem e para o mal. Compromissos académicos primeiro e esta coisa do Natal depois roubaram-me o tempo, o sono e parte da sanidade. Enfim, coisas de alma irresponsável com o relógio.
Apesar de cada vez me dizer menos ao longo dos anos – até ao quase nada –, o Natal ainda me traz alguns momentos deliciosos. Raríssimos, curtos, escondidos, até. Mas nesta 'edição' entregaram-me um embrulho que, entre outras coisas, dizia assim dentro:]
«Eram uma vez um príncipe e uma princesa que se casaram e foram felizes para sempre.
Mas “para sempre” é muito tempo e, com o passar dos anos, a felicidade do príncipe e da princesa começou a ter um sabor estranho e a tornar-se, como hei-de dizer?, um pouco aborrecida.
– Que saudades tenho de quando era guardadora de patos!, dizia a princesa.
– E eu que saudades tenho de quando era sapo, e esperava que tu chegasses e me beijasses para quebrar o feitiço!, dizia melancolicamente o príncipe.»
(Manuel António Pina, 2002. Histórias que me contaste tu. Lisboa: Assírio & Alvim)