empalhar a arte?
A madrugada foi do Taxidermia. O filme, produção partilhada pela Hungria, Áustria e França, passou pelo Fantasporto este ano e foi distinguido com o Prémio Júri do Público/ Jornal Público. O primeiro adjectivo que me saiu foi: grotesco. Depois lembrei-me da crónica do filósofo José Gil no ‘Courrier Internacional’ Nº 118 (6 a 12 de Julho, 2007), a propósito da exposição Bodies, aberta ao público português a 5 de Maio no 42 da Rua da Escola Politécnica, em Lisboa – o Palácio dos Condes do Restelo –, e onde se mantém até final de Setembro. [A tradução da exposição para português ficou: O Corpo Humano Como Nunca o Viu.]
Então, José Gil ia assim, com os limites da arte por horizonte:
«(…) Trata-se de uma exibição de cadáveres reais de chineses condenados à morte e recuperados para serem submetidos a uma técnica especial que os preserva, permitindo mostrar os órgãos com um realismo impossível de atingir por outros meios. Expõem-se corpos inteiros, cortados às fatias tomográficas, órgãos artisticamente arranjados, assim como sistemas anatómicos, a pele destacada da carne e o esqueleto. (…)
(…) O visceral, o escondido o que escapava ao olhar vinham à tona, submergindo o que, na representação clássica do corpo, compunha a sua beleza (a aparência). De certo modo, essa subversão da ordem interior/exterior começara com a arte moderna (Soutine, Bacon), mas respeitando a dimensão velada, se não sagrada, do interior. (…) O corpo, numa certa ‘tendência’ da arte contemporânea, é aberto e destituído pelo princípio da sua exposição infinita. Deixa de ser o ‘lugar da alma’, para ser o espaço ocupado por uma máquina (como Duchamp o antecipou no Grande Vidro).
(…) a Exposição ‘Bodies’ vai mais longe: a ‘inquietante estranheza’ (que Freud enraizava no medo da castração e da morte) mistura-se agora com o horror. Não só porque o corpo é totalmente reificado (sem interior), mas porque não nos é possível esquecer que são corpos reais (…) Schelling dizia, a propósito da inquietante estranheza: o que deveria permanecer escondido é mostrado. (…) Agora mostra-se que não existe um escondido, e que a vida e a morte se confundem no horror – pura questão de organização de imagens.»
Deixo-vos o trailer do Taxidermia (2006):