Sozinho a desenhar


Laços

Posted in Papel por Hugo Torres em Dezembro 16, 2005

São as meninas. As dos olhos. Dos meus olhos. As duas lágrimas que lhes correm. A formalidade tecto-família que acaba. A aula que é última. As músicas, os sorrisos, as palavras; os filhos-da-puta-dos-vizinhos-que-chamaram-a-polícia porque não os deixávamos dormir, faziam já muitas horas da manhã. As noites de quase-filmes. Os textos; os manifestos. Os beijos.

Vocês arrepiam-me a cada palavra-passo que dão para fora daqui. Tu porque és a mais bonita de sempre. Porque és um sorriso e és desengonçada e eu gosto de ti. Porque me sufocam todos os beijos que não te dei; porque o teu abraço é quente e o mais seguro. Porque os teus olhos são os olhos desta floresta, que sem ti desertifica. Porque já não sei sem ti.
Tu porque és o mais bonito de sempre. E ensinaste-me isto. E semeaste para que a floresta crescesse. Porque, por ti, ela, ela e ela e eles. E os silêncios. Porque (a)mar. E porque desconfio que se disser mar em voz alta tu me entras pela janela. Pelo metal fundente, pela barba; pelo nariz de palhaço, pelos morangos, pelo ser; pela poesia.

Levem-me convosco: o que fica é carcaça.

Posted in Post-it por Hugo Torres em Dezembro 16, 2005

Era uma vez
uma fábula famosa,
alimentícia
e moralizadora,
que, em verso e prosa,
toda a gente inteligente,
prudente
e sabedora
repetia
aos filhos,
aos netos
e aos bisnetos.
À base de insectos,
de que não vale a pena fixar o nome,
a fábula garantia
que quem cantava
morria de fome.
E, realmente…
simplesmente,
enquanto a fábula contava,
um demónio secreto segredava
ao ouvido secreto
de cada criatura
que quem não cantava
morria de fartura.

Miguel Torga

Posted in Post-it por Hugo Torres em Dezembro 6, 2005

Vozes estridentes, gritadas
em desalma: doem-me as
pulsões nervosas das entranhas.

(Manoel de Barros, 2000. O Encantador de Palavras. V.N. Famalicão: Quasi)

Posted in Aforismos por Hugo Torres em Dezembro 2, 2005

Qual a diferença entre um apaixonado e a parede?