Sozinho a desenhar


o homem caiu no shopping

Posted in Papel por Hugo Torres em Abril 23, 2006

Subia um lanço curto de escadas. A Polícia Judiciária assegurou que nenhum médico ou arquitecto teria a ocorrência na mira. Eram escadas curtas, muito curtas na altura que quebrava o muro de um lado ao outro do prédio, esventrando-o com pessoas loucas, lúcidas e ingénuas, pessoas com muitos cabelos, com cores, cheias de mãos a mexer aqui e ali, desalmadamente, com esgares superiores e dedos-insectos. Como manta. A tocar em todos os pontos da barriga deitada, ofegante, para cima.
Os pés cabiam no lugar de dois e, mesmo com cordões, era difícil encontrar quem caísse, assim, desamparado. Naquele metal ardente e nebuloso, triste e ensaboado, revolto e resoluto, surdo, cavernoso, calcado na sua cauda canina, intensamente por vezes, imperceptível, levianamente – amor dado por adquirido, com falta de rega e unhas de conversa, roubado pelas pálpebras muito abertas dos olhos assustadoramente esbugalhados, das crianças em transe, apontados às bandeiras raciais que guardam o grande relógio.
Às quatro da tarde, o homem que caiu no shopping era já uma linha branca, com as formas do sono. As lojas vazias engravidaram de amigos que não compravam nada: esperneavam em comentários revolucionários, outros encantados e fantasistas – outros ainda era tudo a mesma coisa. As lojas cheias morreram com o vento frio das portas, agora, sempre abertas, cuidadas por uma fita com dizeres: os transeuntes anónimos levaram os medos para casa. E as casas encheram depressa demais, demasiado cedo no dia, e o pão acabou frio, sem saco que os una, sem mão que os agarre, impedidos de fado. Perdidos numa padaria inteiramente desconhecida à noite. E ninguém sabe… era possível que ninguém os comesse.
Deus via tudo.