Sozinho a desenhar


sobre a saudade

Posted in Papel por Hugo Torres em Outubro 10, 2006

Tinha tulipas. Era um círculo de relva muito verde com sol por cima. Era coisa para muitas cores e um moinho lá à frente. O vento mexia-o muito e nunca, nunca estava quieto, porque íamos soprá-lo com muita força do muito ar dos peitos cheios-cheios quando o vento se esquecia de o pôr a andar. Às vezes, o senhor do moinho sabia que estávamos lá por causa da tosse depois do sopro. Às vezes sabia e não fazia nada. Quando estava triste. Às vezes contava estórias, ou explicava quem tinha inventado o moinho e que havia moinhos de água, mas não era ali. O rio era baixinho e só se viam pequenas carpas para cima e para baixo. Só tinha uma ponte. Mas como as margens ficavam muito perto uma da outra e a água nos dava por cima do umbigo, metíamo-nos água adentro. Tinha era que ser no princípio da tarde para dar tempo de secar as roupas. Éramos meninas e meninos e não podíamos tirar a roupa toda. Foi a mãe que disse. E o pai assentiu!…

Às vezes, o senhor do moinho fazia bolachas. As melhores de sempre! Mas nunca disse à mãe para ela não ficar triste. As dela também eram um bocadinho boas. E o senhor do moinho quando ficava triste era uma chatice: só trabalhava, só trabalhava e nunca vinha brincar e contar estórias e dizer coisas e rir. Gostamos muito do senhor do moinho. Mas ele ficou doente e agora não nos ouve, nem pode vir cá para fora brincar. Está sempre deitado. É como se estivesse a trabalhar. Nunca faz bolachas. Já nem nos lembramos de quem inventou os moinhos, que era o nome esquisito de um senhor loiro com capa e uma espada e que estava sempre bem disposto e contava estórias bonitas às crianças. Estamos sozinhos. E o céu, às vezes, fica escuro, sem estrelas. Eu vejo à noite, em casa. Da janela vê-se tudo: o moinho, as tulipas, a relva, o rio, as outras casas, as árvores, ali ao fundo, a lua… É uma chatice ter que voltar a casa. Queria não dormir e ir lá para fora brincar. Já tenho saudades de correr! Se tivesse fome, vinha. Ou comia em casa da Diana, ou da Catarina, ou assim. E a minha mãe nunca se chateava!…

Há uma árvore, depois das tulipas vermelhas. Era aí que nos encontrávamos. Sempre. Todos os dias. Na escola, nas férias, nos domingos. Se fossemos calçados, os outros escondiam-se: algo estava mal, havia sarilho. Às vezes, vínhamos calçados para gozarmos com os outros a fugir. Quando chovia não contava. Ao sol, os ramos das árvores faziam o chão ondular. Como a água. Por causa do vento. Uma vez, tentámos saber como se chamava. Perguntámos a muita gente, mas ninguém sabia ao certo. Uma senhora disse que íamos aprender isso na escola, mais tarde. Como não tínhamos muito tempo, concordámos que nem todas as árvores têm que ter um nome. Era à beira do rio. Quando estava muito calor, inventávamos um jogo qualquer na água. Toda a gente! As carpas não gostavam muito que brincássemos na água: iam sempre embora a murmurar alguma coisa, com a boca a abrir e a fechar. Nunca subimos à árvore: ela tinha ramos muito fininhos e tínhamos medo de a aleijar.

Ao final da tarde, íamos para o círculo de relva muito verde – não sabíamos se se chamava assim ou não, mas neste caso decidimos dar-lhe um nome. Círculo de relva muito verde parecia adequado. Juntávamos tudo: lanche, lápis de cor, folhas para desenhar, livros. Um senhor que estava do outro lado do jardim sempre ao mesmo tempo que nós estávamos neste, levava um rádio e punha-se a ouvir música. Era sempre diferente. Às vezes gostávamos, outras vezes mais ou menos. Outras, uns gostavam e outros mais ou menos. O lanche era a primeira parte. Sandes com chocolate, com mel, com geleia de morango, leite daquele com muito chocolate, sumos… tudo na relva. E depois cada um escolhia aquele que queria. Nunca sobrava nada e, na volta, comida só de cheiro na mochila. Se escolhessem dois a mesma coisa, um dia os meninos tinham direito de escolha, no outro as meninas. Se era entre meninos e meninos ou entre meninas e meninas era mais complicado e inventávamos novo jogo para o vencedor levar o prémio. Mas só costumava haver problema quando eram poucas as sandes de geleia. Depois desenhávamos até à hora de ir jantar, que era quando o senhor do outro lado desligava a música e ia embora.

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