Sozinho a desenhar


olhos como gaivotas

Posted in Papel por Hugo Torres em Novembro 21, 2006

Não me devia troco. Era óbvio que o patrão não lhe pagava o suficiente por tão altos padrões de serventilismo e bajulação. Disse-lhe que sim.
Assim que descansei pé na calçada azul e amarela, senti uma brisa forte, típica dos lugares costeiros do Norte. Acreditei numa nova tranche que não chegou nos segundos de espera que lhe dispus. Olhei à esquerda: era por ali. Decidi ir a casa tentar a minha sorte no sexo que por lá já deveria jazer, há alguma boa meia hora.

Ia com uns copos no bucho. Nada que não conseguisse controlar, ou afectasse qualquer deliberação. O olhar respondia mal, mas a passada era certa. Dei por mim a caminhar bem depressa. Quem mo sugeriu foram as rotações aceleradas duma cançoneta que trauteava levianamente, modo automático, «alma perdida» – um fado coimbrão, talvez.
Chego. Logo vejo, por entre paredes recortadas, o sexo amarfanhado entre cobertores, lençóis e sono. Dono de um mundo perdido, insolente e desonesto. Deixei-o. Resolvi-me pelo cubículo com sofá de pele e brochura em clave de sol. A porta por trás de mim – fechei-a. Sentei-me. Permiti-me respirar, semicerrar os olhos a ler um poema decorativo a sujar a brancura da parede em frente e criticar. É Pessoa: típico. Desconfiei de mim, da chave e do mar, que já havia desaparecido do horizonte agora de silhueta cinzenta e envidraçada.

Em cima da mesa, estava um plástico gordo, de três discos. Pelo que percebi, teria Coimbra dentro. E tem. Mas teria que confirmar – não se confiam assim as peles de galinha e o estremecer do dorso e o encabular dos miúdos. Autorizei-o tocar e, num impulso, doseei o volume do aparelho no limite máximo das suas capacidades: saíram-me das colunas o sol e um corte degolador: Fernando Machado Soares. Surpreendente. Mais tarde, viriam Luís Goes, António Bernardino, Luís Marinho, Alfredo Correia, as palavras de Manuel Alegre – uma espécie de antologia da segunda metade do século XX das guitarras coimbrãs.
Nunca me perguntei o porquê do fascínio com estas vozes e literaturas. No caso das paixões, nem sempre a razão importa. Eles dão-me a vida e eu retribuo: sem mim – e outros como eu – remeter-se-iam ao esquecimento, perdidas nas prateleiras e no lixo das gavetas perras. Dou-me com prazer a citá-los, ouvi-los, rasgá-los, enternece-los e a divinizá-los. Se o escrevo, reconhecem-me na rua com o fervor reservado às pessoas que escrevem, os intelectuais que adicionam aos povos como favor que lhes fazem – não o irá cobrar por complacência. Talvez chegue a Presidente da República. Ou escreverei livro sobre um. Qualquer coisa que me permita continuar a comer e a ouvir o fado que tão superiormente me embala.

Não consegui ouvir os semáforos disfuncionais, lá em baixo, que iriam, indignadamente, para o jornal da Junta de Freguesia. Pensei nas ondas, no Amor, nas gaivotas, no azul, na morte, nos olhares inesquecíveis e anónimos da rua e do comboio, nos viajantes e em Al Berto, nas cidades maiores que o mundo possível de alguém, nos fogos, nas serpentes e nas florestas doutros países, na viabilidade dos deuses gregos, no socialismo, nas crianças sem fado e sem alma, nas pontes, nas ilhas, na pintura – desta vez, no universo do Dada –, nos sons das cordas e nos dedos, em sexo.
À minha volta, queixavam-se os vidros – a mesa, os copos, os vasos e as flores-faz-conta. Desliguei tudo. Saí. Noite.

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