Sozinho a desenhar


novas leituras

Posted in Post-it por Hugo Torres em Janeiro 28, 2007

camus.jpgDecidi-me a roubá-lo. Afinal, estava para acontecer-lhe um fim-de-semana sozinho, desterrado numa prateleira – um campo de concentração de livros, se preferirem. Foi um prenda de há dias dela para ele. E eu subverti o laço. Agora, foi meu primeiro.
A Queda (1956), do argelino Albert Camus, Prémio Nobel da Literatura em 1957, é uma fatia literária de corrente existencialista. Não posso dizer que me tenha arrebatado. Mas foram, com certeza, umas horas bem passadas. Deixo-vos dois apontamentos:

«Paris é uma autêntica ilusão de óptica, um soberbo cenário habitado por quatro milhões de silhuetas. Perto de cinco milhões, no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que os nossos concidadãos tinham duas paixões: as ideias e a fornicação. A torto e a direito, para assim dizer. De resto, não os condenemos; são os únicos, é assim toda a Europa. Cismo, por vezes, no que dirão de nós os futuros historiadores. Bastar-lhes-á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. Depois desta definição, ouso dizê-lo, o assunto ficará esgotado.»

«Deliciosa casa, não acha? As duas cabeças que vê acolá são de escravos negros. Uma tabuleta. A casa pertencia a um traficante de escravos. Ah! não se escondia o jogo, nesse tempo! Havia desassombro, dizia-se: «Aí tem, a casa é minha, faço tráfico de escravos, vendo carne negra». Imagina alguém, hoje em dia, a tornar público que é esse o seu ofício? Que escândalo! Estou a ouvir os meus confrades parisienses. É que eles são irredutíveis nessa questão, não hesitariam em lançar dois ou três manifestos, talvez mais ainda! Pensando bem, eu juntaria a minha assinatura à deles. A escravatura, ah, isso não, nós somos contra! Que se seja constrangido a instalá-la em sua casa, ou nas fábricas, vá lá, está na ordem das coisas, mas gabar-se disso é o cúmulo.»

«E então? Então a única utilidade de Deus seria garantir a inocência e eu veria antes a religião como uma grande empresa de lavandaria, o que aliás foi, mas por breve tempo, durante trê precisos anos, e não se chamava religião. Depois, falta o sabão, temos o nariz sujo e assoamo-nos mutuamente. Todos maus alunos, todos castigados, escarremos em cima e zás! Para o «desconforto»! É ver quem escarra primeiro, eis tudo. Vou dizer-lhe um segredo, meu caro. Não espere pelo Juízo Final. Realiza-se todos os dias.»

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  1. 😀


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