Sozinho a desenhar


olhos como gaivotas (2)

Posted in Papel por Hugo Torres em Janeiro 25, 2007

Nunca gostou das minhas namoradas. Levava-me para o mar como se segura um peixe fora d’água: com uma rede. Assoava-me o nariz quando chegava a casa da escola e esfregou-me a cabeça até aos 11 anos. Eu sabia fazê-lo. Mas era da certeza comum que não. Era muito novo. Nada que o relógio e a sopa não tratassem; mas era muito novo. E, mais a mais, tinha muito tempo pela frente. O sabão é coisa séria, não vão as outras pessoas dizer que tens cera nos ouvidos, ou assim. Estava em causa o bom-nome de uma casa velha, pintada de azulejos cor-de-rosa – detestáveis, intragáveis ao bom-gosto que entretanto desenvolvi: insuportáveis.

Nunca me explicou o que era um preservativo. Levava-me às lojas e escolhia por mim todas as roupas: as mais desastrosas opções de moda, algures entre o vermelho das calças e o estampado animal da camisola encrespada pelos tempos de feira. Pagava e dizia-me que aquilo é que era bonito, iria aprender também com o tempo, que não me preocupasse. O argumento da troça dos amigos era afastado com a inveja e, no que respeitava a meninas, não seria por certo pelas vestes que me iriam escolher para a vida. Quando tentava explicar que era muito novo para fazer escolhas para a vida, apanhava com um dilacerante e exclamativo mais uma razão.

Nunca mencionou a cara masculina que me crescia, em idade e admiração de espelho, a quadrados vistos. Levava-me de carro para a escola, mais o lanche a meio da manhã. Quando questionei a razão da segundo parte do ritual, por que não poderia eu empacotar a merenda logo aos primeiros raios dos dia, antes de sair de casa, hora a que o padeiro já expunha ao mundo o seu perfume salgado e quente de Inverno – que se sentia desde lá de casa –, arrotava-me um é preciso que a comida seja mesmo fresca, da hora, e que iria esmagar tudo na mochila. Isto num tom irritado e quase violento. Mais: o que se vende na escola é só plástico: dizia-o como se a lápide que norteia os mortos se tornasse mais próxima à simples investida no assunto. Dez minutos antes do último toque, estava cá fora, à minha espera – não fosse eu, por razões alheias, sair mais cedo.

Nunca me meteu uma lâmina nas mãos. Levava-me com um orgulho estranho pelas ruas com um aquele bigode de imberbe, típico de um recém-licenciado pela academia ambígua da puberdade. És muito novo. Era um argumento muito válido. E vasto, ao que parecia. Uma redoma. Serviu ainda para me retirar da prateleira “O Rei Leão”, que eu via dezenas de vezes, quando descobriu que existia uma mensagem subliminar num dos planos com a palavra ‘sex’ – coisa que eu nunca tinha reparado e que também não me foi dito.

Um dia, entrei sem bater no quarto grande. Estava a vestir-se: vi uns seios enormes e – sei-o agora – demasiado seguros de si mesmos para a idade. Pedi perdão e saí. Nesse dia descobri a masturbação – não fazia, então, a mais pequena ideia do nome, claro, mas era uma fuga para o prazer solitário em que me embotei por anos a fio. Primeiro indignado, depois habituado aos anos de inércia social a que me tinham sujeito. Dedicava boa parte do meu tempo aos livros que encontrava pela biblioteca da escola, sem qualquer método de escolha. Antes de as ler, as obras tinham que passar pela sua censura. Porque era muito novo, já se sabia. Depois, passei para as revistas pornográficas que comprava nos quiosques da cidade vizinha, onde ninguém me reconheceria. Aqui aprendi (ou convenci-me) que a omissão e a mentira era conceitos distintos, que se podiam aparelhar em conjunto, mas que também podiam bem sobreviver um sem o outro.

(1)

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crinisparso

Posted in Léxico por Hugo Torres em Janeiro 25, 2007

do Lat. crine, crina + sparsu, espalhado

adj., poét.,
que tem os cabelos soltos ou desgrenhados.

(Priberam Informática – Língua Portuguesa On-Line)

‘Sooner or later God’ll cut you down’

Posted in Pauta por Hugo Torres em Janeiro 24, 2007

É o vídeo que proponho hoje: um dos grandes a ser homenageado pelos fãs de nome inscrito nos passeios da fama.

Meninos e meninas: Johnny Cash.

God’s Gonna Cut You Down, Johnny Cash (2006)

James Nachtwey #17

Posted in Película,Sugestão por Hugo Torres em Janeiro 24, 2007

«I have been a witness, and these pictures are my testimony. The events I have recorded should not be forgotten and must not be repeated.»

Décima sétima e última galeria: 9-11-01.

New York, 2001 – Collapse of south tower of World Trade Center.

James Nachtwey: biografia; galeria #01; #02; #03; #04; #05; #06; #07; #08; #09; #10; #11; #12; #13; #14; #15; #16.

embotar

Posted in Léxico por Hugo Torres em Janeiro 24, 2007

v. tr.,
tornar boto ou rombo;
estragar, tirar o gume a instrumento cortante;
fig.,
tornar insensível;
v. refl.,
tornar-se insensível;
enfraquecer-se.

(Priberam Informática – Língua Portuguesa On-Line)

novas leituras

Posted in José Manuel Mendes,Post-it,Sugestão por Hugo Torres em Janeiro 23, 2007

o_leitor.jpgArrancou ontem uma nova estória debaixo dos olhos: O Leitor (Der Vorleser, no original), de Berhard Schlink (1995). A sugestão saiu das dezenas com que José Manuel Mendes salpicou a ‘Conversa no Tanque’ da Velha-a-Branca, Braga, no passado domingo. Deixo-vos dois trechos da primeira parte da obra. Estou a gostar.

«A paisagem é plana, ou muito suavemente ondulada. Não há árvores. O dia está luminoso, o sol brilha, o ar reverbera, e a estrada cintila de calor. As paredes laterais do prédio fazem-no parecer recortado, incompleto. Aquelas poderiam ser as paredes de qualquer prédio. A casa não é ali mais sombria do que a da Rua da Estação. Mas as janelas estão cobertas de pó, não deixam adivinhar nada dentro das divisões, nem sequer as cortinas. A casa é cega.»

«Porquê? Por que razão, quando olhamos para trás, o que era bonito se torna quebradiço, revelando verdades amargas? Por que razão se tornam amargas de fel as recordações de anos felizes de casamento, quando se descobre que o outro tinha uma amante durante todo aquele tempo? Por que não era possível ter sido feliz numa situação assim? Contudo, fomos felizes! Por vezes, quando o final é doloroso, a recordação trai a felicidade. Por que é que a felicidade só é verdadeira quando o é para sempre? Por que é que só pode ter um final doloroso quando já era doloroso, ainda que não tivéssemos consciência disso, ainda que o ignorássemos? Mas uma dor inconsciente e ignorada é uma dor?»

o menino acordou

Posted in Media,Sugestão por Hugo Torres em Janeiro 23, 2007

O Rascunho está de novo disponível. Este interregno não será inconsequente: trará, um pouco mais tarde, mudanças inevitáveis. Obrigado pela paciência.

‘Let me be your rider till your real man comes’

Posted in Pauta por Hugo Torres em Janeiro 23, 2007

Sempre delicioso encontrá-lo pelo caminho. E o tempo foi o de hoje. (Ainda não tinha visto o vídeo: simples, capaz, fabuloso.)

Meninos e meninas: Tom Waits…

Lie To Me, Tom Waits (2006)

blackfield & wolf

Posted in Pauta,Sugestão por Hugo Torres em Janeiro 23, 2007

blackfield_vinyl.jpgEstão dois discos essenciais para sair em Fevereiro. O primeiro – e o que me está mais próximo, confesso – tem o carimbo Aviv Geffen/ Steven Wilson (Porcupine Tree/ No-Man) e chama-se Blackfield II. O trabalho de estreia dos Blackfield (homónimo, de 2004) é-me muito querido e a expectativa para este é bem alta.
Quanto ao segundo, diz respeito ao novo de Patrick Wolf, The Magic Position, que deve ver a luz das lojas a 26 de Fevereiro. Wind In The Wires (2005) é o culpado pela vontade aguçada.

Já não são surpresas na caixinha da música: são nomes obrigatórios para quem gosta de música. O que me acalma, é que não tardam.

nota: os links para o Rascunho não implicam que o menino já esteja curado, mas apenas que já se podem consultar os arquivos.

James Nachtwey #16

Posted in Película,Sugestão por Hugo Torres em Janeiro 23, 2007

«I have been a witness, and these pictures are my testimony. The events I have recorded should not be forgotten and must not be repeated.»

Décima sexta galeria: Indonesia.

Indonesia, 1998 – Jubilation at announcement of Suharto’ s resignation.

James Nachtwey: biografia; galeria #01; #02; #03; #04; #05; #06; #07; #08; #09; #10; #11; #12; #13; #14; #15.

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