Sozinho a desenhar


13 de Maio

Posted in Post-it por Hugo Torres em Maio 13, 2007

Para
Georges Izambard

 

Charleville, [13] de Maio de 1871

Caro Senhor:

Ei-vos de novo professor. Devemo-nos à sociedade, dissésteis-me vós; fazeis parte do corpo dos docentes: seguis por caminhos experimentados. – Também eu sigo o princípio: cinicamente, faço-me sustentar; desencaminho alguns imbecis antigos do colégio: tudo o que posso inventar de mais estúpido, porco e reles, por palavras ou acções, a eles o deixo: pagam-me com canecas e miúdas – Stat mater dolorosa, dum pendet filius, – Devo-me à sociedade, é justo, – e tenho razão. – Também vós tendes razão, por hoje. No fundo, vós nada vedes em vosso princípio senão poesia subjectiva: a vossa obstinação em retomar a manjedoura universitária – perdão – prova-o. Mas acabareis sempre horrivelmente fastidiosa. Um dia, espero, – muitos outros esperam a mesma coisa – verei no vosso princípio a poesia objectiva, vê-la-ei mais sinceramente que vós próprio a fareis! – Serei um trabalhador: é a ideia que me retém, quando a louca cólera me empurra para a batalha de Paris – onde tantos trabalhadores morrem agora mesmo que vos escrevo. Trabalhar agora, nunca, nunca; estou em greve.

Agora, mergulho na maior devassidão possível. Porquê? Quero ser poeta e trabalho para me tornar visionário: vós não compreendeis nada e eu não sei se saberei explicar-vos. Trata-se de atingir o desconhecido através do desregramento de todos os sentidos. Os sofrimentos são enormes mas é preciso ser-se forte, ter nascido poeta, e eu reconheci-me poeta. Não é de modo algum culpa minha. É falso dizer-se: eu penso. Deveria dizer-se: sou pensado. – Desculpe o trocadilho. –

Eu é um outro. Tanto pior para a madeira que se descobre violino e zomba dos inconscientes que discreteiam sobre aquilo que pura e simplesmente ignoram.

Não sois Mestre para mim. Dou-vos isto: será uma sátira como vós diríeis? É poesia? Fantasia, é-o sempre. – mas, suplico-vos, não a sublinheis com o lápis nem – demasiado – com o pensamento:

Coração Supliciado

(………………….)

Isto não quer dizer nada. – RESPONDA-ME: para casa do sr. Deverrière, para A. R.
Saúdo-o, de todo o coração,

Art. Rimbaud

(Rimbaud, Arthur (1995). Cartas do Visionário – e mais nove poemas. Coimbra: Fora do Texto)

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Uma resposta to '13 de Maio'

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  1. eu tenho este livrinho e nunca o li. agora fiquei com vontade 🙂


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