Sozinho a desenhar


além dos muros

Posted in José Manuel Mendes,Post-it por Hugo Torres em Maio 25, 2007

– Hoje serei audaciosa.
– Em quantos hojes envelheceste essa audácia?
– Que frasalhão, bicho. Conseguirei. Tu verás.
Embrenha as mãos na cabeleira que flutua. Estendem-se, depois, apetecendo a fragrância salitrada. Pescadores arrastam uma traineira até à franja dos sargaços ressequindo. Deixa repousar a cabeça no peito que ele lhe oferece ternamente.
– Um dia, lembras-te?, em Coimbra, pegaste em flores para apedrejar a violência.
Desenha-lhe no rosto, com o indicador, frescas abstracções.
– Como farás agora?
– Não pegarei em flores.
– Terás palavras como pedras, uma funda de palavras.
As nuvens remancham a claridade. Ao longe o mar. Agitado. Com alvas crinas no dorso.
– Sim, meu profeta tonto. E virei para o teu abraço, para a vida.
Beija-o. Ausentam-se da rede volúvel dos minutos. Da suave progressão do crepúsculo, arrepiado nas cortinas de austrálias, no molhe tristonho do cais. Quando regressam trazem nos corpos o frémito da euforia. Estiram esse tépido rio claro sob a aragem.

(José Manuel Mendes, 1989. O Homem do Corvo. Mem Martins: Publicações Europa-América)

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