Sozinho a desenhar


Escondido em Roma

Posted in Papel por Hugo Torres em Agosto 31, 2007

Não há tecto que não caia, ou sol que não se apague. Por favor não cuspam no chão. Há cera e cadeia, gatos, porcos e lebres para os lados do S. João. Aquiete-se: só 50 paus. Preciso d’água, pronto. Não chegam – não é? Peço o complemento a outro, não pretendo incomodá-lo, senhor. E a verdade é que nunca engravidei ninguém – embora pense muito nisso. Nem gosto cá de perfumes, ou águas de colónia. Não é que seja homem: tomo banho. E hoje acordei cedo, pela manhãzinha.

Enfiei-me logo no trabalho: escrita e mais escrita sem descanso, rever isto, publicar, rever aquilo, publicar. O que vale é que fica bonito – e, mais, quando as pessoas (as pessoas são muito importantes) concordam que, sim, senhor, está bonito. Às vezes – em que a aquarela não secou –, borra-se tudo. Não nos perdoam, implacáveis. E não há nada a fazer. Segue-se caminho: o passado é irremediável.
Parei apenas com a fronha enfiada na testa a tempo de apertar o vestido branco, preto e amarelo da criatura demasiado ensonada que saiu do mundo perdido dos sonhos antes de tempo, limpar o marfim e sair para recapitular o velho hábito do pequeno-almoço e comprar o jornal. E esta miúda agrada-me! Especialmente enfiada neste vestido – confesso que me preocupou amiúde deixá-la ir avante com a ideia anunciada de ir para o escritório, sozinha, naqueles trajes de formas e traços futuristas e que, ainda por cima, cuidavam o tão esquecido bom-gosto como já não lembro.

Finalmente, enfiei-me tanto pelo trabalho adentro que me atrasei, inevitavelmente, para o almoço na Sá da Bandeira, naquele restaurante com esculturas em altares – uma religiosidade, se me perguntarem – mesmo à frente dos bancos (dos grilhões da liberdade) – sabem onde é. Horas fugiram – como? Desconfiei mesmo que não chegaria a bom porto. (Que de resto é onde estou. Não tem os barcos de outros tempos e serve-se de uma maiúscula para a majestade, mas segura-se bem.) Almocei, por fim, uma banalidade de batatas fritas com carne.
Voltei a deixá-la ir. De novo o escritório – horários impiedosos. Quase impossível. Logo me embrenhei em discussão sem dente nem siso com o digestivo: não sei se o desagradável paladar na boca é da comida sem escovagem – como vos detesto, casas de pasto, por isto! – se azia de mais uma partida que leva olhos e coração. Nada a fazer: a prestação, a renda, as contas… e o gosto pelas coisas, ora essa!

Decidi não regressar ao trabalho à tarde. A manhã foi proveitosa, está calor, há estrada. O Público ainda não foi aberto com a decência e atenção que exora a cada página. E hoje com os cadernos das piadas e das artes, interessa-me, pronto.

Antes, desço a Baixa até à Ribeira. Declinei a sesta. Há uns aviões em acrobacias por cima do Douro que fazem capas de jornais e gastam minutos e minutos na televisão – toda a gente os quer ver. Como as ovelhas (ou os carneiros): vai por ali. E o povo a ir.
Só dou por mim na multidão já perto do leito dos acontecimentos. Encontra-se de tudo. (Um calor abrasador…) Arrumo de pazada única as asas com pretensões a entretenimento: não me puxaram, pronto, vi duas piruetas e vim-me embora. Procurei os amigos que por lá andavam, sem sucesso. Volto a subir a Baixa. Mas encontro uma avalancha. Deus deve rir-se com estas ironias. E, mais uma vez, de tudo.

Crianças, velhos, jovens, adultos, mulheres, homens, adolescentes fora da idade. Seios grandes, pequenos, de mão, mulheres pensadas sem seios, seios muito grandes, seios absurdos, gente migrada. Miúdas feias, miúdas muito feias. Miúdas desprezíveis. Barbas, óculos, com e sem auscultadores. Nenhuma miúda bonita. Miúda muito, muito bonita: uma – sem idade. Curiosos, comerciantes, gente de férias, gente desempregada. Reformados. Desejosos. Conformados. Gente com sede. Crianças entusiasmadas, crianças a brincar na água onde vão morrendo os ratos urbanos com penas. Putos de colo. Gente doente – há sempre gente doente em toda a parte. Muitos homens com brincos. Mulheres sem brincos, desarranjadas, despreocupadas. Putas e polícias. Trânsito. Máquinas fotográficas – sobretudo digitais. Um Cesariny vivo, mas com boina. (Que de resto me vem debaixo do braço – comprei-o ontem, o Jornal do Gato, por razões do Pacheco.) Gente animada. Silhuetas improváveis. O Prado Coelho – vivo também – na capa do Jornal de Letras. Vizinho do rabo moreno de um nome sem importância enfiado numa tanga, lascivo, desejável pelos solitários do sexo. Os comboios invisíveis, as buzinas. Até Il Caffe di Roma. Onde bebo, sento e descanso.

Pelo caminho, ninguém empenhava o The New York Times – isto é verdade. Mas o Benfica anda por aí, pelo Porto.

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ó professor, mas…

Posted in Jornalismo por Hugo Torres em Agosto 30, 2007

entre tentativas gastronómicas, falhas técnicas, explosões de circo – muita parra e pouca uva – de fogão e, finalmente, ter comida para dar ao dente, só apanhei a fase final do Primeiro Jornal da Sic. (calhou: podia ter sido – e por norma, é – o Jornal da Tarde da RTP1.)

por que tem isto referência? simples: numa altura do já-não-temos-mais-que-lhe-diga-até-à-novela-da-tarde, depois de um asiático qualquer a puxar um par de metros um comboio com os dentes (!), eis que aparece, lá no finzinho, para não incomodar ninguém, uma peça pequenina a informar que Serralves vai fazer alguma coisa… qualquer coisa… bom, não sabemos bem: deixemos um senhor qualquer abrir a boca, enquanto a malta faz o mesmo (para bocejar).

há horas em que me apetece mandar os senhores editores para as putas que os pariu. vá, umas vezes mais que outras.

sub specie aeterni (IV)

Posted in Película,Sugestão por Hugo Torres em Agosto 28, 2007

Quatro incontornáveis num só momento: Stanley Kubrick na realização, Jack Nicholson na interpretação, Stephen King na escrita e Wendy Carlos na banda sonora. (Fosse isto um concurso e quantos vencedores teríamos?) Pois bem, 1980, um dos meus preferidos: The Shining.

Penso que o filme tem dois momentos absolutamente marcantes para a História do Cinema. Este não é nenhum deles. Mas é, provavelmente, o grande twist da coisa. Não escolho por aí, mas apenas por paixão ao momento. (Da Shelley Duvall, lembro-lhe apenas o Underneath, do Soderbergh, em 1995 – alguém com memória maior?)

Posted in Pauta,Sugestão por Hugo Torres em Agosto 27, 2007

o Hélder pediu-me para falar sobre música. em 2007. foi o que fiz. outros se seguirão.

a crónica de um aperto anunciado

Posted in Papel por Hugo Torres em Agosto 25, 2007

Descobri-o no mesmo tempo do Público. Há anos. No início acrescentou-me vida aos olhos, às crenças e às vontades; mais tarde, já eu o sabia família, o deleite não nascia na divinização do autor, mas no cruzamento das suas palavras com – e o grifo é dele, claro que se lembram – o fio do horizonte. (Não sei até que ponto se inspirou na obra de Maugham para esta titulação.) Muitas vezes não concordei com os seus caminhos. Outras – muitas, muitas mais –, sim.

Vi-o, à minha frente – para não duvidar da sua existência no mundo aparente –, nas Correntes d’Escritas, Póvoa de Varzim, em 2006. (Numa conferência que comandava, do centro da mesa, um conjunto de escritores onde figurava o angolano Manuel Rui, entre outros que agora não lembro, e a plateia tinha lugar, mesmo nas minhas costas José Carlos Vasconcelos – se a memória não me atraiçoa.) Já aí não era surpresa o dia de hoje.

Obrigado pelos dias.

concertos para hoje e amanhã: Noites Ritual

Posted in Pauta,Sugestão por Hugo Torres em Agosto 24, 2007

Devidamente noticiado aqui e aqui, este festival caseiro [adjectivo carinhoso] vem sendo hábito pessoal dos últimos anos. 2007 não vai ser diferente. E lá estaremos, no Palácio de Cristal, no Porto, para as Noites Ritual. Born a Lion, Riding Pânico e os novos sets de Clã e David Fonseca são as curiosidades para o vivo.

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Pescadinha de rabo na boca

Posted in Pauta,Post-it por Hugo Torres em Agosto 23, 2007

Os Clã ofereceram ontem a meia centena de seguidores um ensaio geral, num armazém fechado da natal Vila do Conde. (Aos seguidores e a mais punhado, bem significativo, de jornalistas, se é que estes diferem dos outros – aproveito esta caminhada em segundo discurso, já que ela lá estava, para reiterar aqui o meu quando for grande quero ser: a Inês Nadais, do Público, que me encanta mais e mais a cada novo texto, porque me agarra do início ao fim do mais comprido, sem bocejos, sem distracções, com o famigerado brilho nos olhos que os outros, do seio dos seus conhecimentos avassaladores, não arrancam.) Tinha noticiado a coisa aqui, a par do lançamento do novo single, Tira a Teima.

Fui como admirador, não como comentador, com excelente companhia – duas meninas: esta e esta.

Pois bem, as músicas do novo álbum estão excelentes, as novas interpretações de GTI e Topo de Gama estão bem, sim, senhor (melhor a primeira que a segunda), o tema que ficou de fora do alinhamento do disco dá bom pão para surpresas nos concertos e as letras do Tê, numa primeira audição, estão lindíssimas – e eu nem sou grande apreciador do rapaz.

Coisa houve que não agradou nem um pouco: o velho e costumeiro atraso. Pior: com o pessoal primeiro cá fora ao vento gelado do litoral norte e depois lá dentro, rabo no chão duro, à espera, à espera, à espera… Irritou-me particularmente porque não jantei para chegar às 21h00 em ponto e, mais, quase revolucionei os horários da rotina caseira para arranjar um carro que nos levasse a bom porto.
A coisa passou com o início do concerto. (Do ensaio, perdão.) Mas o chão, as costas, a posição dolorosa, as pernas sem eira nem beira… Quem me deu o Theatro Circo, o CCVF, a Casa da Música e a Casa das Artes de Famalicão estragou-me. Podem acusar-me de snobismo. Não digo que não. Mas se já não gosto de ouvir música de pé, sentado no chão, no cimento, é um martírio. Não sei se será tanto uma atitude burguesa, se a simples vontade de dedicar todos os esforços do corpo ao que se passa em palco em vez de o dispersar pelos músculos que, culpa própria – bem sei –, já não demonstram a mesma vontade de outras estações.

Assumo o cada vez maior conforto do espectador como prioridade do copo onde é servido – mesmo que – o melhor dos sumos. Tal como escrevia Beatriz Pacheco Pereira, em Março de 1999, mas sobre cinema: «Eu, pecadora, me confesso. Desde que me habituei a ver filmes em boas poltronas, com som do melhor e um écran de todo o tamanho, não aguento ver filmes, por melhores que eles sejam, em piores condições que estas.» ¹

¹ cf. Beatriz Pacheco Pereira, 2000. Pre-Textos de Cinema. Porto: Granito/ Cinema Novo

serigrafia de luz

Posted in Post-it por Hugo Torres em Agosto 22, 2007

Em 2002, por ocasião do cinquentenário da morte de Teixeira de Pascoaes, António Mega Ferreira seleccionou alguns pedaços da literatura («colhidos sobretudo nas obras autobiográficas») deste importante autor da primeira metade do século passado, em conjunto com algumas imagens, igualmente antologiadas. O volume – de nome Anjos e Fantasmas – chegaria a público em Fevereiro do ano seguinte, com o carimbo da Assírio & Alvim.

Do Duplo Passeio (originalmente publicado em 1942), Mega Ferreira saca esta metáfora explicativa (p.58):

«Suponhamos que a Lua era o único astro alumiante; e que um poeta se lembrava de imaginar um Sol e as cores e as formas que uma paisagem tomaria à sua luz. Resultaria falsa a imagem? Pois bem: esta falsidade é da arte.»

da crítica

Posted in Película,Post-it por Hugo Torres em Agosto 21, 2007

Ratatouille, de Brad Bird, não é mais um filme de animação. É um excelente exemplo (quem sabe, o divino exemplo) da união das forças Pixar e Disney. Mas não vou alongar-me sobre a obra mais que isto: brilhante, paguem bilhete.

Interessa-me um discurso sumário de Anton Ego, crítico gastronómico que segura na mão – ou na pena – a fatalidade. Eis o que a memória retém – principalmente a deste que vos escreve – na fidalga voz de Peter O’Toole:

«In many ways, the work of a critic is easy. We risk very little yet enjoy a position over those who offer up their work and their selves to our judgment. We thrive on negative criticism, which is fun to write and to read. But the bitter truth we critics must face is that, in the grand scheme of things, the average piece of junk is more meaningful than our criticism designating it so. But there are times when a critic truly risks something, and that is in the discovery and defense of the new.»

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os dias, as noites e os sonhos entre eles

Posted in Luiz Pacheco,Post-it por Hugo Torres em Agosto 21, 2007

luiz_pacheco.jpgDepois de visto o excelente documentário sobre Luiz Pacheco (realizado por António José de Almeida, com o subtítulo Mais um dia de noite) que a RTP2 transmitiu ontem, vim à biblioteca – lugar calmo de onde escrevo – procurar os volumes que me foram apresentadas como obras-primas da literatura mundial do século XX. Luiz Pacheco: só soava o nome; não sabia mais, confesso. Descobri entretanto vários elementos da história pessoal e das ideias deste escritor nascido em 1925 – ainda vivo.

Pois bem, biblioteca, dizia. Peguei em dois dos livros disponíveis. Logo a abrir o primeiro – o conto de Natal Os Doutores, a Salvação e o Menino Jesus, com a chancela da Oficina do Livro, em 2002 – arremeça o Pacheco sobre a minha geração (a propósito do que se vai seguir no escrito):

«Alguns leitores mais novos nem o conseguirão entender e receio muito que, sem as esperanças e os mitos que douraram a nossa infância, não tenham coisa melhor de que se abonem, a não ser as cabeças vazias, muita gana e, principalmente, o serem novos, que é a mais bonita maneira que se conhece de não se ter razão, a não ser essa.»

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