Sozinho a desenhar


Tiepolo fica, obrigado

Posted in Tela por Hugo Torres em Novembro 30, 2007

O Estado português exerceu o direito de opção sobre Deposição de Cristo no Túmulo, de Giovanni Tiepolo. Foi ontem, por um milhão e meio de euros, preço base de licitação da obra que chegou mesmo a ir a leilão – sem, contudo, encontrar comprador interessado em manter o quadro em Portugal. Encaminha-se agora para o Museu Nacional de Arte Antiga, onde poderá ser visitado pelo público.

Sem mais conversa: muito bem e obrigado.

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«o cheiro da sombra das flores»

Posted in Post-it,Sugestão por Hugo Torres em Novembro 29, 2007

Ando há dias com as pernas tensas. De nervos. Não sei bem porquê. Olho o relógio e lá se vai a calma, abro um livro e lá se vai a calma, dedico-me ao cinema e lá se vai a calma, escrevo uma linha e a calma perde-se como se nunca tivesse sequer existido. E nos entretantos vão passando os dias, menos mal. Não consigo furtar-me a este ridículo pesar físico, que de tão miudinho se agiganta. (Ter consciência disto torna tudo brutalmente mais absurdo.) Adiante.

joao_negreiros-o_cheiro_da_sombra_das_flores.jpgOntem fechei A Sopa, de Filomena Marona Beja. Não foi mal: é uma literatura evasiva, mas capaz. O tempo não foi dado por perdido. Hoje abro outro. No 207 sufocado, do Santo António ao Campo da Pasteleira. Poesia. Chama-se o cheiro da sombra das flores, é assinado por João Negreiros. O lançamento, no próximo sábado, confunde-se com a despedida temporária do camarada José Luís Costa, de partida para Paris. É ele – mais a Cátia Cunha e Silva – que vai – vão – dizer a poesia, no Iduna, em Matosinhos. Está marcado para as 22h00, depois da bola.

A abrir o livro, Joaquim Pessoa escreve o prefácio. E deixa este poema do Ary dos Santos, que agora transcrevo integralmente, no ar. Finaliza a nota inaugural relembrando os dois primeiros versos.

Original é o poeta
que se origina a si mesmo

que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

não é meu, mas também não sai cá de casa

Posted in Tela por Hugo Torres em Novembro 23, 2007

Portugal tem um Tintoretto: é cada vez mais consensual que a tela A Adoração dos Reis Magos sita no mosteiro de Singeverga, em Santo Tirso, é um verdadeiro Jacopo Robusti (1518-1594). Mas Portugal tem mais arte veneziana, com o peso dos séculos a acenar que sim à mestria do autor. Tem um Giovanni Tiepolo (1696-1770).

Titulado Deposição de Cristo no Túmulo, a obra está classificada desde 1939 e, desde essa mesma altura, impedida de ser adquirida por um comprador estrangeiro. E é desde 1939 que o Estado português tem direito de opção sobre esta «pintura interessantíssima», como a classifica o director do Instituto dos Museus e da Conservação, Manuel Bairrão Oleiro, ao Público. Em Maio de 2003, o então ministro da Cultura, Pedro Roseta, tentou mesmo transformá-la em bem de interesse nacional. O Supremo Tribunal Administrativo não permitiu.

Deposição de Cristo no Túmulo (na imagem abaixo) vai a leilão na próxima quinta-feira, 29, pelas mãos da Leiria & Nascimento. A base de licitação é de um milhão e 250 mil euros. (A corrida pode ser, de resto, acompanhada online.) No mesmo artigo do Público, a jornalista Inês Nadais questiona a inércia estatal: «É incongruente a ministra da Cultura usar a escassez de obras de referência nas colecções nacionais para justificar investimentos como o do Hermitage e agora desperdiçar a oportunidade de enriquecer essas colecções com esta compra?» A própria responde: «Eventualmente.» Eu, aqui, posso ser mais taxativo: sim.

Escusado será dizer que a interdição do leilão ao mercado internacional vai baixar significativamente o valor da obra. Pedro Dias, do Instituto de História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, defende que «se o Estado decidir que não deve adquirir o quadro, também não deve impedir a sua saída para o estrangeiro.» E acrescenta, ao Público, com boa dose de razão: «ou o quadro tem interesse e o Estado vai ao fundo do baú para o licitar (e o paga honradamente, e a pronto, aos preços do mercado internacional sem arranjar subterfúgios para o desvalorizar), ou não tem interesse.»

Pois bem. Comprem-no. Prescindo das árvores de-Natal-maiores-da-Europa pelos anos que forem necessários.

tiepolo-deposicao_de_cristo_no_tumulo.jpg

Portugal! Portugal!

Posted in Pauta por Hugo Torres em Novembro 22, 2007

Não. Não é futebol: os Led Zeppelin vão entrar em digressão mundial em 2008, com The Cult como banda de suporte. E mais não se sabe. Que palcos acolhem a reunião? Não se sabe. Se colocar uma bandeirinha à janela funciona?

led-zeppelin.jpg

doce brisa

Posted in Pauta por Hugo Torres em Novembro 16, 2007

Quem disse que os jornais impressos servem para muito pouco? Quase nada. Enganou-se, está claro. A Internet é tão prolífera que em vez de ajudar atrapalha. São os danos colaterais da coisa. Os jornais – impressos – (um apenas, vá) mostraram-me esta menina que agora vos deixo. (Nada prova que não a acabasse por encontrar na rede. Mas a verdade é que não foi o que aconteceu.) Chama-se Brisa Roché, tem novo álbum – Takes.

estava eu a dizer e…

Posted in Léxico,Política por Hugo Torres em Novembro 15, 2007

Quem tem acompanhado os comentários do historiador Rui Tavares e da jornalista Helena Matos na últimas página do Público? O primeiro começou, terça-feira, por cumprimentar Zapatero pela postura democrática a propósito da polémica que envolve o Presidente venezuelano, Hugo Chávez, e o Rei espanhol, Juan Carlos de Borbón, na Cimeira Ibero-Americana. E reprovou a postura real. A segunda fez do texto a massa ideológica preconceituosa do costume e disparou que Chávez era o «ditador de estimação» de Rui Tavares. E foi por aí fora.

O historiador dá hoje conta de vários percursos que vão «da amálgama à amálgama», explicando que «antes de ser de esquerada» é «antitotalitário». E, de encontro ao meu último post, escreve assim:

Chávez chama “fascista” a Aznar mais ou menos como Helena Matos chama “ditador” a Chávez – de forma repetitiva e sem a mínima consideração pelo significado das palavras. Reagindo a isso, Zapatero pediu respeito pelo seu antecessor e pelo povo que o elegeu. Mas foi talvez outra coisa que fez dele, naquele momento, um campeão da democracia: ter exigido respeito pelas palavras, que são os alicerces do debate honesto. Aznar não é um “fascista”. Nem a um adversário se devem distorcer as palavras. “Fascista” não significa dirigente eleito de que Chávez não goste, tal como “ditador” não significa dirigente eleito de que Helena Matos não gosta. Leio a resposta de Zapatero assim: sobretudo a um adversário não se devem distorcer as palavras.

das pedras de mau cheiro

Posted in Papel por Hugo Torres em Novembro 13, 2007

‘Fascismo’ e ‘Comunismo’ são cada vez mais subterfúgios que se mandam abaixo a cada argumentação que tende a ir frontalmente contra a verdade instituída. Uma pena. E agrava-se com a idade – dos mais velhos para os mais novos.

de preto

Posted in Universidade por Hugo Torres em Novembro 12, 2007

Da notícia que faz a manchete do JN de hoje, sobre o abuso das praxes ‘académicas’, a propósito do caso na Escola Superior Agrária de Santarém há uns anos, que metia episódio com «bosta de vaca» na cabeça da Ana, saltam-me à vista estas tiradas:

1) «Passaram-se cinco anos, mas a advogada de Ana garante que a jovem continua “a sofrer” com tudo o que viveu.»

2) «Entre Outubro de 2002 e Março de 2003, Ana foi às aulas, mas sempre às escondidas dos colegas, alguns deles proibidos de falar com ela. Entrava e saía pelas portas traseiras com medo de ser castigada, até ao dia em que o caso se tornou público.»

Pelo exagero de ambos os lados, que se tornam os dois ridículos, parvos e pequeninos. O costume, portanto.

à quinta frase da página 161

Posted in Post-it por Hugo Torres em Novembro 10, 2007

A Eduarda lançou-me o repto: reproduzir aqui no blogue, integralmente, a quinta frase da página 161 do livro à distância de um braço. (Tinha um mais perto, mas cumpri à risca. Direitinho: um braço de distância, nem mais ou menos. A mais teria Cesariny, Reis-Sá e uma antologia de poesia espanhola contemporânea, entre outros. A menos teria Manara e Herberto Helder. E assim deixo o mapa do meu quarto poveiro, hoje tão pouco povoado de livros.) Bem, aqui fica, do volume Portugal e o Mundo – O Encontro de Culturas na Música (Dom Quixote, 1997), coordenado por Salwa El-Shawan Castelo-Branco:

«O menor dos equívocos da portugalidade não será decerto o facto de alguns dos hoje considerados mais representativos músicos portugueses no âmbito da música erudita serem, talvez, os menos ‘nacionalistas’.»

Como devo desafiar mais cinco, passo a acção para ali: crocodilo; Duelo ao Sol; O filtro; o número primo; plantar ideias.

do Público

Posted in Papel por Hugo Torres em Novembro 9, 2007

Hoje o Público é da família. Eu assino o meu primeiro artigo, o Samuel mais dois, o Victor outro e, por fim, o Hélder volta a fazer capa do suplemento/ gratuito Sexta e, entre os artigos que assina lá por dentro – adivenhem lá –, está um sobre os portugueses no mundo com foto (grandota) do Larguesa na China. E assim vamos.

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