Sozinho a desenhar


«o cheiro da sombra das flores»

Posted in Post-it,Sugestão por Hugo Torres em Novembro 29, 2007

Ando há dias com as pernas tensas. De nervos. Não sei bem porquê. Olho o relógio e lá se vai a calma, abro um livro e lá se vai a calma, dedico-me ao cinema e lá se vai a calma, escrevo uma linha e a calma perde-se como se nunca tivesse sequer existido. E nos entretantos vão passando os dias, menos mal. Não consigo furtar-me a este ridículo pesar físico, que de tão miudinho se agiganta. (Ter consciência disto torna tudo brutalmente mais absurdo.) Adiante.

joao_negreiros-o_cheiro_da_sombra_das_flores.jpgOntem fechei A Sopa, de Filomena Marona Beja. Não foi mal: é uma literatura evasiva, mas capaz. O tempo não foi dado por perdido. Hoje abro outro. No 207 sufocado, do Santo António ao Campo da Pasteleira. Poesia. Chama-se o cheiro da sombra das flores, é assinado por João Negreiros. O lançamento, no próximo sábado, confunde-se com a despedida temporária do camarada José Luís Costa, de partida para Paris. É ele – mais a Cátia Cunha e Silva – que vai – vão – dizer a poesia, no Iduna, em Matosinhos. Está marcado para as 22h00, depois da bola.

A abrir o livro, Joaquim Pessoa escreve o prefácio. E deixa este poema do Ary dos Santos, que agora transcrevo integralmente, no ar. Finaliza a nota inaugural relembrando os dois primeiros versos.

Original é o poeta
que se origina a si mesmo

que numa sílaba é seta
noutra pasmo ou cataclismo
o que se atira ao poema
como se fosse ao abismo
e faz um filho às palavras
na cama do romantismo.
Original é o poeta
capaz de escrever em sismo.

Original é o poeta
de origem clara e comum
que sendo de toda a parte
não é de lugar algum.
O que gera a própria arte
na força de ser só um
por todos a quem a sorte
faz devorar em jejum.
Original é o poeta
que de todos for só um.

Original é o poeta
expulso do paraíso
por saber compreender
o que é o choro e o riso;
aquele que desce à rua
bebe copos quebra nozes
e ferra em quem tem juízo
versos brancos e ferozes.
Original é o poeta
que é gato de sete vozes.

Original é o poeta
que chega ao despudor
de escrever todos os dias
como se fizesse amor.

Esse que despe a poesia
como se fosse mulher
e nela emprenha a alegria
de ser um homem qualquer.

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  1. Uma edição da Papiro Editora 😛 .


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