Sozinho a desenhar


esta ortografia: liberdade

Posted in Léxico,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 29, 2008

Não tenho problemas com o acordo ortográfico proposto para os países de expressão lusófona. No entanto, leio hoje, pela primeira vez nos últimos meses, uma opinião válida e a ter em conta na oposição ao processo. Assina Desidério Murcho, no segundo caderno do Público:

Agora que estamos perante o anunciado facto consumado de mais uma modificação legal da ortografia da nossa língua, que afinal não parece nossa, vale a pena pensar outra vez nesta questão.

Independentemente de saber se a nova ortografia é linguisticamente melhor, ou se há vantagens políticas numa ortografia unificada com o Brasil e os outros países lusófonos, a questão fundamental não parece ter sido discutida. E é esta: até que ponto faz sentido legislar sobre a língua? Devemos legislar exclusivamente sobre aquilo que ficaria pior se não legislássemos. Este é um princípio evidente quando prezamos a liberdade. Mas é claro que a cultura portuguesa nunca foi receptiva à ideia de liberdade, e pelo contrário seguimos o princípio de legislar sobre tudo o que é possível legislar.

Caso o princípio de liberdade estivesse enraizado na nossa cultura, encararíamos com assombro a ideia de fazer leis sobre a ortografia.
Não há tal coisa, tanto quanto sei, nos países de língua inglesa; e no entanto os livros americanos e ingleses circulam entre os dois países sem dificuldade.
A mentalidade salazarista portuguesa é tal que mal se fala de não legislar sobre a língua algumas pessoas imaginam que se trata de cada qual escrever à sua maneira.

Não é disso que se trata, mas antes de permitir que as normas linguísticas evoluam naturalmente, por força das publicações relevantes dos especialistas: dicionários, gramáticas, enciclopédias e outras obras de consulta, além da escrita académica em geral e também da popular, como é o caso dos jornais.

É contraditório defender a evolução natural da língua, e ao mesmo tempo defender a legislação sobre a língua – pois legislar sobre a língua é impedir a sua evolução natural. Sem legislação, certas formas ortográficas e gramaticais serão gradualmente introduzidas, tal como certas palavras são acrescentadas ao léxico; e certas formas ortográficas e gramaticais serão abandonadas, como acontece também com o léxico. Imagine-se o que seria fazer uma lei sobre as palavras que pertencem ou deixam de pertencer ao léxico da língua portuguesa: isso não seria uma contribuição para a evolução natural do léxico. Para a evolução de uma língua ser natural tem de se basear no modo como realmente as pessoas usam a língua, e não no modo como um político qualquer decide que devemos escrever ainda que se rodeie dos melhores linguistas.

Qualquer linguista pode e deve propor as mudanças linguísticas que bem entender; mas propor, escrevendo gramáticas e dicionários, é muito diferente de obrigar-nos legislativamente a escrever “ótimo” em vez de “óptimo”.

A discussão sobre o acordo ortográfico não deve abordar exclusivamente a questão de saber se é linguisticamente acertado ou comercialmente vantajoso. Deve abordar também a questão mais fundamental de saber que tipo de sociedade queremos ser: uma sociedade que preza a liberdade, ou uma sociedade centralista, sufocada por leis sem as quais a vida não seria previsivelmente pior.

da ambiguidade da beleza

Posted in Papel por Hugo Torres em Janeiro 25, 2008

Pouco antes da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais explicar – a mim e a outros – que o Batalhão Sapadores Bombeiros (no Porto, único ‘batalhão’ do país) está em falta de, pelo menos, 117 elementos (tem 200) para cumprir de forma válida as suas funções e não comprometer as próprias vidas, diz um senhor, sem nome para este que assina, ao volante de um táxi-206: «O dia mais bonito da minha vida não foi nenhum dos nascimentos das minhas filhas, foi o 25 de Abril. Mas já passou…» De facto. E as liberdades estão todas complicadas de novo. (Ou ainda.)

As conversas sinceras, essas, da Pasteleira a Santa Catarina, Boavista acima, calmas, honestas, essas, sim, são bem-vindas. De surpresa, tanto melhor.

sobre andar em volta

Posted in Papel,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 23, 2008

Dar um salto nas manhãs de trabalho a Vila Nova de Gaia tem, na volta, sempre um brinde: poder encarar de frente, ao sol do meio-dia, a Ribeira do Porto, seguindo, a passeá-la até à Foz. A ser possível empacotar, embalar e mostrar o brilho que poucas vezes chega aos meus olhos, uma dessas escassas formas seria aquela.

ribeira_do_porto-por_miguel_afonso.jpg

Here we go up, up, up,
Here we go down, down, down,
Here we go backwards and forwards,
And here we go round, round round. ¹

¹ cf. Alberto Pimenta, 2002. Tijoleira. Lisboa: & etc

da sede, aos 70

Posted in Post-it por Hugo Torres em Janeiro 19, 2008

Maria Leonor Nunes transcreve esta história para o Jornal de Letras, Artes e Ideias n.º973 (p.18):

Era a primeira vez que a carrinha dos livros da biblioteca de Almodôvar se fazia à estrada. Mal chegou ao largo de Santa Clara a Nova – é sempre na praça central das povoações que faz paragem –, aproximou-se uma mulher notoriamente vestida a rigor. Andava pela casa dos 70 anos. Subiu à carrinha, perscrutou as estantes, escolheu três livros: Capitães da Areia, de Jorge Amado, A Selva, de Ferreira de Castro, e Aparição, de Vergílio Ferreira. Sacou o Bilhete de Identidade da mala e apresentou-o para fazer a ficha do empréstimo. Um processo que parecia saber de fio e pavio, para espanto do bibliotecário. A mulher fez então menção de sair, mas antes voltou-se para trás, com os livros na mão, e exclamou: «Esperei 25 anos por este momento». É que tinha sido uma cliente certa das Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian e quando estas acabaram ficou sem leituras.

E continua por aí fora. É, essencialmente, bonito. Mais que a tristeza dos anos magros, saciar é, essencialmente, bonito.

ar condicionado

Posted in Papel,Pedra por Hugo Torres em Janeiro 16, 2008

Sabemos do pouco que valem estas classificações, estas tabelas de gosto, enfim. Sabemos que servem apenas para inchar os «egos indígenas mais saloios». De qualquer forma, é bonito ver uma vizinha representada na lista das 10 melhores livrarias do mundo, na opinião do jornalista Sean Dodson, do The Guardian: a Lello [na foto], no Porto, em terceiro lugar. À cabeça está a Boekhandel Selexyz Dominicanen, em Maastricht, Países Baixos.

livraria_lello.jpg

Obrigado pela dica, Bibliotecário de Babel.

Posted in Papel por Hugo Torres em Janeiro 15, 2008

Encontrei os desejos para 2008: passos em frente.

Obrigado pela dica, Herberto.

de ver o rio ao amanhecer

Posted in Al Berto,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 14, 2008

Al Berto faria, há poucos dias, 60 anos, se vivo (1948-1997). Li uma ou outra referência ao caso, por aí. Reservei-lhe o dia de hoje. Por razões que se percebem com a primeira linha, dele, que se segue:

14 de janeiro
todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me. desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar? e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz. escrevo com um único fim: salvar o dia.

Al Berto, via vortex; o bold é da responsabilidade do quarto dele

«Record Label: unsigned»

Posted in Pauta por Hugo Torres em Janeiro 13, 2008

Que o mundo é pequeno e de demais juízos sociais, já tínhamos conhecimento. Contudo, é sempre giro ver o denominador comum de dois pedaços de planeta que pensávamos tão díspares. (Ou que nunca considerámos juntos. Adiante.) Aí está ele, aí em baixo, no vídeo, protagonizado pelo bom amigo de início de tempos universitários, o Estevão (Gomes), mais «o Né», de Vila do Conde, conhecido por amigos presentes de outros relógios, de outras coordenadas, a dar música às gentes com o – agora – duo The Portugals. O tema chama-se Give it to me. Vale a pena a música, mas também o vídeo, filmado em Braga. Segue:

e nós?, hoje

Posted in José Manuel Mendes,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 12, 2008

Da voracidade de que a Eduarda fala aqui, que me afecta de tempos a tempos, sai:

Estes meses de lonjura desembravecida. De como os homens são capazes de mudar o mundo. A Pátria em discussão, mal-grado os axiomas. Um povo homiziado, um destino a torcer. O combate múltiplo pela fraternidade. A utopia eufórica duma construção: o homem igual ao homem.

José Manuel Mendes, Ombro, Arma!, Lisboa, Círculo de Leitores, 1991, p.144

Ainda «o Pacheco»

Posted in Luiz Pacheco,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 11, 2008

Na edição de hoje do Sexta, Cabral Nunes, o editor último da Comunidade do Pacheco, com serigrafias do Cruzeiro Seixas, volume lançado em Novembro último pela Perve, escreve assim sobre os derradeiros dias do «libertino»:

Obrigavam-no, a ele, Príncipe entre plebeus, a viver os seus últimos dias sob a ditadura da misericórdia, assim mesmo, com ‘m’ minúsculo que bem podia ser de merda de país, de gente entaramelada sabendo pouco mais que nada, de si, do mundo, julgando-se mais, até por isso mesmo, capaz da suprema desfaçatez que só a ignorância permite: a ocultação da luz interior.

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