Sozinho a desenhar


rodar a saia

Posted in Papel por Hugo Torres em Fevereiro 22, 2008

Aprecio um bom café (bebida). Mas não encaro a coisa com fanatismo. Isto é, sendo o café (estabelecimento) suficientemente agradável para a convivência à luz de candeeiros, para a leitura demorada do jornal, de um livro, para ver um filme em companhias desconhecidas, para, sobretudo, levar nas trombas com sorrisos abertos de todas as vezes, sem excepção, ponderando tudo isto, o café (bebida) perde muita da sua importância e é facilmente substituído por um Favaios. É o que encontro mesmo aqui, ao pé de casa, no 281 da transversal Rua do Rosário, no Gato Vadio.

Sei bem que para o lado oposto tenho o acolhedor Progresso, o bom café de saco, as madeiras e as escadas e muito mundo a rodar. (E não me coloquem a hipótese Piolho. Causa-me alguma urticária – não pelo nome, bem entendido.) Mas os vadios, que encontraram toca onde noutros tempos parece ter vivido o vermelho dos cadáveres de mesa de um talho (a teoria é dela; a mim parece-me bem) e o transformaram num café-bar-livraria-atelier-de-design, abraçaram-se a mim, como se me conhecessem de outras andanças, a dizerem que não largavam e para que não me fosse (e não iria, mas a conjuntura abanou-me a presunção e fiquei apenas de lá voltar).

Na prateleiras de livros do Gato, o que se encontra é uma selecção de títulos que passam muito pela & etc, pela Antígona, pela Assírio & Alvim, e outras estampas de cuidados reforçados (ou assim as entendo). Resultado: prometi ao espelho que comprando livros seria em pequenas livrarias como esta ou como, por exemplo, a Poetria, na Rua das Oliveiras. Que me deixaria de grandes superfícies que comem os livros ao pequeno-almoço (como os comunistas com as crianças) e por aí fora.

Quando cheguei de Paris, e o movimento contrariou o hábito e levou-me a estar boa parte da semana na Póvoa de Varzim, a propósito do Correntes d’Escritas. No único dia no Porto, vou à Fnac de Santa Catarina, percorro as prateleiras. O cinema, as promoções, os livros e… Manuel Rui, Quem me dera ser onda (Caminho, 2007). Lutei. Que não levava, pensava eu. Havia de o encontrar noutro sítio, mais curto em uniformes. Mas: sabia eu que noutro lugar me apeteceria comprar um outro título, um outro autor, que me apaixonaria pela certa por outra lombada, outra infância. Assumi: a liberdade do acaso, do momento que encara os cornos do touro de frente, nunca pode ser posta em causa. Trouxe-o. Li-o, satisfeito.

Entretanto, hoje, pela primeira vez desde que saí do Público, dirigi-me a uma tabacaria para comprar o jornal. (Duas semanas a noticiário de televisão, quem se importa!?) Não vou enumerar as razões do afastamento. Remeto as responsabilidades para a lição que aprendi e transcrevi acima. A tal da conjuntura que me permite estar no Porto, 2008, a escrever virado para uma palmeira que serve de sombra a dois gatos que preguiçam no telhado de um colégio feminino. Mas sei por que lá fui precisamente hoje. Tudo bastante prosaico: uma das últimas peças que escrevi naquela redacção de gentes ocupadas foi parar às páginas 2 e 3 do Sexta. Tema de capa, começa por dizer, e aperta na dinâmica cultural portuense. Eu e o Hélder, a partilhar páginas impressas e textos e assinaturas conjuntas. Bonito, pá. E até nos chamaram à primeira página do próprio Público.

Hoje, o dia acordou mais sonolento que o costume. Hoje, vai demorar a passar. Hoje, não vou lanchar, nem vou ao cinema mais logo. Hoje, recebi um ramo de flores. Que, apesar de não pagar a renda no final do mês, anima sempre um ou outro dente.

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3 Respostas to 'rodar a saia'

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  1. e que belo duo. parabéns pelo artigo, que além da qualidade prima, sobretudo, pela pertinência.que venham outros 🙂


  2. Parabéns menino, a tua hora está a chegar, sinto-o.*

  3. José Torres said,

    Sempre apreciei aquilo que fazes e escreves. Não só por seres meu filho, mas principalmente pela maneira como o fazes (escreves), com PRAZER com PROFUNDIDADE e com ALMA. Nem sempre fazemos o que gostámos ou gostariamos de fazer por uma simples sequência da vida. Não é teu caso. Sinto que estás no TEU MUNDO. No entanto, nem sempre é fácil chegar e estar nesse mundo, e mesmo para estar nesse mundo temos que lutar e sofrer muito. Tu chegaste e agora vem a luta para ficares e continuares. Por ti sinto-me feliz e descansado porque sei que vais conseguir os teus intentos. E um dia ao olharmos para trás e na retropestiva da vida, sentirmo-mos satisfeitos e felizes, e pensarmos “custou mas consegui”.
    Por toda esta tua luta e pela luta do teu querer estás de Parabéns.
    José Torres


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