Sozinho a desenhar


a cova: céu aberto

Posted in Papel,Post-it por Hugo Torres em Março 10, 2008

Deixo:

Eis o que é a morte: a dor extrema, a dor emudecida. O terror instintivo da morte é uma advertência. Não quero morrer e vou ressuscitá-los! Viver sempre! Amar sempre! Sonhar sempre! (…) Agarro-me a tudo, tudo me prende, o sonho que não existe, as horas inúteis, o possível e o impossível. A floresta não faz parte do meu ser, e eu tenho aqui a floresta, o som e o aroma da floresta, a vida da floresta; o céu não faz parte do meu ser, e eu sou o céu profundo, o céu trágico e o céu esplêndido. Dá-me a vida – dou-te tudo em troca…
(…)
E aqui te faço uma confissão: o que mais me custa a largar é, como à cobra a pele, a vida comezinha. Não, o fim lógico não é morrer, é viver sempre, é ascender sempre. Até onde? Até Deus. Vou ressuscitá-los. Vou ressuscitá-los! E em ele se pondo a caminho vais ver dourado. A vida toma novo impulso. Desaparecendo a morte é que tu abranges a vida. Vais ver a cor que toma o mundo, as tintas que o mundo escorre e as flores que as árvores criam. Vou ressuscitá-los! Vou ressuscitá-los!…

A terra remexe.

BRANDÃO, R. (1991), Húmus. Lisboa: Círculo de Leitores. (Obras Completas de Raul Brandão).

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Mobilidade literária

Posted in Jornalismo,Media por Hugo Torres em Março 3, 2008

O trabalho tem sido muito e as novidades (uma delas fúnebre, mas logo fénix) não tardam. E pelo andar rápido da carruagem não dei aqui conta da primeira edição impressa do ComUM (primeiro número do novo fôlego, sabe bem quem conhece o projecto; os restantes ficam agora a saber da década de andanças da publicação). Dou agora. Até porque, com muito gosto e carinho, participei na estreia, cronicando. Deixo a vénia à equipa, mais um pedaço do texto:

O comércio fora da porta, com lonas publicitárias e smarts pintados com a ideia primeira do Miguel, a feira dos livros destacados. Por ali acima era a subir com o Pepetela ao lado – isto, sim, frio na espinha: senhor, senhor… desculpe, senhor. «Senhor não, camarada», já sei, Manuel, mas que queres? O Ondjaki, senhor camarada, sempre em todo o lado, a saltar as vedações do primeiro balcão para as cadeiras vagas por pouco tempo. Era para lhe lembrar: «O mar em redor de mim – não tanto uma casa para habitar, mais para estar.» E confrontá-lo com a maresia da minha Póvoa que sobe pela António Graça, salta as escolas e ainda chega viva ao auditório; o vento. Ia confrontá-lo, com a vossa Angola. Até lembrar que o primeiro passo é apertar-lhe a mão e que esse é um passo muito complicado. Observei-o muitas vezes. É um miúdo.
O que é sair genuinamente satisfeito de meia semana de Correntes d’Escritas, Manuel? Comigo, antes de mais, é Mia Couto. Ouvir-lhe a serenidade e afastar a ideia de ícone pop que ainda ocupa na estruturação do mundo. (Afinal, somos apaixonados ou não somos? Prefiro-o no posto ao Morrison. Veremos que uma coisa é uma outra e que o espaço não esgota.) O valter explicou a infância: «digo que via coisas como quem vê o que não existe». Pois, está bem. Mas esta infância renovada dos livros, cheia, é de todo palpável, concreta. Uma alegria impulsionadora.

Hoje, sai o segundo número. (E é a vez do outro co-refundador do ComUM, o Hélder, dar asas à pena.)