Sozinho a desenhar


e nós?, hoje

Posted in José Manuel Mendes,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 12, 2008

Da voracidade de que a Eduarda fala aqui, que me afecta de tempos a tempos, sai:

Estes meses de lonjura desembravecida. De como os homens são capazes de mudar o mundo. A Pátria em discussão, mal-grado os axiomas. Um povo homiziado, um destino a torcer. O combate múltiplo pela fraternidade. A utopia eufórica duma construção: o homem igual ao homem.

José Manuel Mendes, Ombro, Arma!, Lisboa, Círculo de Leitores, 1991, p.144

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além dos muros

Posted in José Manuel Mendes,Post-it por Hugo Torres em Maio 25, 2007

– Hoje serei audaciosa.
– Em quantos hojes envelheceste essa audácia?
– Que frasalhão, bicho. Conseguirei. Tu verás.
Embrenha as mãos na cabeleira que flutua. Estendem-se, depois, apetecendo a fragrância salitrada. Pescadores arrastam uma traineira até à franja dos sargaços ressequindo. Deixa repousar a cabeça no peito que ele lhe oferece ternamente.
– Um dia, lembras-te?, em Coimbra, pegaste em flores para apedrejar a violência.
Desenha-lhe no rosto, com o indicador, frescas abstracções.
– Como farás agora?
– Não pegarei em flores.
– Terás palavras como pedras, uma funda de palavras.
As nuvens remancham a claridade. Ao longe o mar. Agitado. Com alvas crinas no dorso.
– Sim, meu profeta tonto. E virei para o teu abraço, para a vida.
Beija-o. Ausentam-se da rede volúvel dos minutos. Da suave progressão do crepúsculo, arrepiado nas cortinas de austrálias, no molhe tristonho do cais. Quando regressam trazem nos corpos o frémito da euforia. Estiram esse tépido rio claro sob a aragem.

(José Manuel Mendes, 1989. O Homem do Corvo. Mem Martins: Publicações Europa-América)

novas leituras

Posted in José Manuel Mendes,Post-it,Sugestão por Hugo Torres em Janeiro 23, 2007

o_leitor.jpgArrancou ontem uma nova estória debaixo dos olhos: O Leitor (Der Vorleser, no original), de Berhard Schlink (1995). A sugestão saiu das dezenas com que José Manuel Mendes salpicou a ‘Conversa no Tanque’ da Velha-a-Branca, Braga, no passado domingo. Deixo-vos dois trechos da primeira parte da obra. Estou a gostar.

«A paisagem é plana, ou muito suavemente ondulada. Não há árvores. O dia está luminoso, o sol brilha, o ar reverbera, e a estrada cintila de calor. As paredes laterais do prédio fazem-no parecer recortado, incompleto. Aquelas poderiam ser as paredes de qualquer prédio. A casa não é ali mais sombria do que a da Rua da Estação. Mas as janelas estão cobertas de pó, não deixam adivinhar nada dentro das divisões, nem sequer as cortinas. A casa é cega.»

«Porquê? Por que razão, quando olhamos para trás, o que era bonito se torna quebradiço, revelando verdades amargas? Por que razão se tornam amargas de fel as recordações de anos felizes de casamento, quando se descobre que o outro tinha uma amante durante todo aquele tempo? Por que não era possível ter sido feliz numa situação assim? Contudo, fomos felizes! Por vezes, quando o final é doloroso, a recordação trai a felicidade. Por que é que a felicidade só é verdadeira quando o é para sempre? Por que é que só pode ter um final doloroso quando já era doloroso, ainda que não tivéssemos consciência disso, ainda que o ignorássemos? Mas uma dor inconsciente e ignorada é uma dor?»

Se os homens fossem cães

Posted in José Manuel Mendes,Post-it por Hugo Torres em Dezembro 26, 2006

Fragmento:

«Ele carregava uma matilha de cachorros no peito, via-se na cara. Deviam uivar minuto a minuto, pelo sono dentro, a qualquer hora. Sorria, sorria quase sempre, mas nós apercebíamo-nos dos rafeiros a latir ao fundo do sorriso. Compreende? Quem é que sabe as porcarias que se escondem no sorriso de um gajo? Um gajo como o senhor, como eu? Naquele sábado, farto de tamanho canil em rebuliço, muniu-se de flores e veio celebrar a memória, que é a única coisa de sagrado na vida de alguém. Em seguida, está-se a ver, adeus crepúsculo, cuida-te mundo que parto para não regressar. Um tiro, uma imperial. Tão simples, amigo. Não acha?»

(José Manuel Mendes, 1997. O Rio Apagado acasos e travessuras. Porto: Campo das Letras)

Folha de Outono

Posted in José Manuel Mendes,Post-it por Hugo Torres em Dezembro 13, 2006

Fragmento:

«Afaga a testa numa volúpia súbita: “Para quem, como eu, traz nos sentidos o fascínio das trovoadas de África, um certo modo de dizer infância, este mundo que desaba não é mais do que prelúdio do sol, brancura e luminescência, palmeiras e mar, pássaros, canícula. Por isso, dentro em breve, um navio irá cruzar o horizonte. Um navio enorme e azul, sem dúvida. Com destino a Capetown ou Las Palmas, qualquer desses lugares do mito e da liberdade.”»

(José Manuel Mendes, 1997. O Rio Apagado acasos e travessuras. Porto: Campo das Letras)

O barco que não naufragou

Posted in José Manuel Mendes,Post-it por Hugo Torres em Dezembro 13, 2006

Fragmento:

«E de repente, Elsa, uma ventania medonha, as árvores despindo-se, o Outono cobria-te os ombros, remei para o cais, remei, doíam-me os músculos, como me doíam os músculos, remei, remei, o barco ia voltar-se, a folhagem despenhando-se sobre ti vestida de azul, alguém veio em nosso auxílio, e eu a colher o teu silêncio antes da tempestade, nunca observara uma expressão tão feliz, sorrias de puro esplendor, eu a colher o teu silêncio e os pássaros ausentes, o lago, o bosque, o mundo convulso em que nos abraçaríamos à espera do funicular

(José Manuel Mendes, 1997. O Rio Apagado acasos e travessuras. Porto: Campo das Letras)