Sozinho a desenhar


«Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira?»

Posted in José Saramago,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 2, 2008

«(…) cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos (…)»

José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Lisboa, Caminho, 1995, p.135

Anúncios

Posted in José Saramago,Post-it por Hugo Torres em Dezembro 23, 2007

«Os cépticos acerca da natureza humana, que são muitos e teimosos, vêm sustentando que se é certo que a ocasião nem sempre faz o ladrão, também é certo que ajuda muito. Quanto a nós, permitir-nos-emos pensar que se o cego tivesse aceitado o segundo oferecimento do afinal falso samaritano, naquele derradeiro instante em que a bondade ainda poderia ter prevalecido, referimo-nos o oferecimento de lhe ficar a fazer companhia enquanto a mulher não chegasse, quem sabe se o efeito da responsabilidade moral resultante da confiança assim outorgada não teria inibido a tentação criminosa e feito vir ao de cima o que de luminoso e nobre sempre será possível encontrar mesmo nas almas mais perdidas.»

José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Lisboa, Caminho, 1995, pp.25-26.

novas leituras

Posted in José Saramago,Post-it,Sugestão por Hugo Torres em Fevereiro 4, 2007

pequenas_memorias.JPGDois dias sem novidades implicam, não um atentado ao arrojo da regularidade com que esta desencantada página se apresenta ao leitor, mas, como dizia, estava prestes a, implicam dois dias de música, de literatura, de abraços, de viagens, dois destas temporadas enganosas, apresentadas como férias ao final dos exames académicos, mas que apenas servirão para pôr a escrita em dia, os amigos em dia, a criança em dia. Quem gosta de frases compridas? Nota-se o Saramago que ando a ler? Pois bem: depois de uma rápida passagem pelo universo de fantasia e sarcasmo de Gogól, com O Nariz de sua pena, dou-me agora ao prazer d’As Pequenas Memórias de José de Sousa, por vontade do bêbado funcionário do Registo Civil também Saramago – alcunha da família paterna, lá nas terras ribatejanas da natal Azinhaga.
Deixo-vos um curto apontamento:

«Meu pai não era pessoa para deixar que o filho lhe ganhasse, e, por isso, implacável, aproveitando-se da minha pouca habilidade, ia marcando golos uns atrás dos outros. O tal Barata, como agente da Polícia de Investigação Criminal que era, deveria ter recebido treino mais que suficiente quanto aos diferentes modos de exercer uma eficaz pressão psicológica sobre os detidos ao seu cuidado, mas terá pensado naquela altura que podia aproveitar a ocasião para se exercitar um pouco mais. Com um pé tocava-me repetidamente por trás, enquanto ia dizendo: «Estás a perder, estás a perder.» O garoto aguentou enquanto pôde o pai que o derrotava e o vizinho que o humilhava, mas, às tantas, desesperado, deu um soco (um soco, coitado dele, uma sacudidela de cachorrito) no pé do Barata, ao mesmo tempo que desabafava com as poucas palavras que em tais circunstâncias poderiam ser ditas sem ofender ninguém: «Esteja quieto!» Ainda a frase mal tinha terminado e já o pai vencedor lhe assentava duas bofetadas na cara que o atiraram de roldão no cimento da varanda. Por ter faltado ao respeito a uma pessoa crescida, claro está. Um e outro, o pai e o vizinho, ambos agentes da polícia e honestos zeladores da ordem pública, não perceberam nunca que haviam, eles, faltado ao respeito a uma pessoa que ainda teria de crescer muito para poder, finalmente, contar a triste história. A sua e a deles.»