Sozinho a desenhar


instantes de autocarro

Posted in Papel,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 2, 2008

Li pela primeira vez este poema, abaixo transcrito, a abrir um livro de crónicas de Joaquim Fidalgo, precisamente com o nome A Surpresa dos Instantes (2000). É da Sophia e está no primeiro tomo de versos desta menina do sol, da terra e do mar. E do branco. Nunca fui seu admirador profundo. Mas hoje a edição definitiva de Poesia (Caminho, 2003, mas antes em 1944) abriu-se nas minhas mãos: os temores de desinteresse seguem marcha, salvo uma ou outra excepção.

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.

Posted in Papel por Hugo Torres em Janeiro 2, 2008

O Douro acordou doente: constipado, febril, cinzento.

sem agonias de pescoço

Posted in Papel,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 1, 2008

Não vou andar com listas de balanço, com pódios mais ou menos justos de encontros e desencontros. Não é que não lhes veja utilidade ou piada. Não sou – de todo – devoto das nostalgias imediatas, é isso. Não isto, não aquilo. Mais: acordar para um novo ano é um acto preguiçoso; musicado, abraçado, espirrado, mas preguiçoso. E do resto é letra.

Sobre as páginas ali, à direita, com as coisas de 2007 empacotadas, logo pesarei prós, contras e demais jogos de tribunal, a deliberar sobre mutações do «7» para o «8». Olhando rapidamente o que ali se fez castelo de ABC de muitos nomes e origens, noto que, no cinema, conheci finalmente João César Monteiro – já era tempo… –, e que tive uma boa relação, serena e contente, apesar de tudo, com o Woody e o Moretti. Na música, nos poucos concertos onde estive durante o ano, Joanna Newsom e Patrick Wolf (ambos no Theatro Circo) foram os que deram mais frutos; finalmente vi Metallica, a fechar a adolescência fora de tempo, ainda que morno; e José Mário Branco, e José Mário Branco, e José Mário Branco, e José Mário Branco, e José Mário Branco, e José Mário Branco, e José Mário Branco, e José Mário Branco, e José Mário Branco, e José Mário Branco. Que é outra coisa além da música, mas que a tem e possui e ama.

Para a literatura, muda-se de parágrafo. Não li muito. Li quando o coração pediu muito – isso, sim. Foi aqui que encontrei um dos entusiasmos do ano: Luiz Pacheco. Não quero destacar nenhum livro. Apenas os que me ocupam agora o tempo e a perspectiva: Ensaio Sobre a Cegueira (1995), de José Saramago; A Corja (1880), de Camilo Castelo Branco; Ombro, Arma! (1978), de José Manuel Mendes; e Poesia (1944), de Sophia de Mello Breyner Andresen. Deixo Camilo [cf. Camilo Castelo Branco, A Corja, Biblioteca Ulisseia de Autores Portugueses, 2000, p.34]:

A saudade! Ai! Esta palavra nenhuma religião a pôs como penitência, e o abade, quando a sentia, de si consigo, murmurava: «O inferno é isto.»

Posted in Papel por Hugo Torres em Dezembro 30, 2007

Na rua, um metro a separar duas cabeças, mãe, filho, quatro, cinco anos de idade, a querer uma coisa, qualquer coisa, que não pode ter, diz a mãe. Porque: Já não és nenhum menino pequenino!

Posted in Papel por Hugo Torres em Dezembro 19, 2007

Embora com outros contornos, esta tem sido a questão central dos meus dias, na parte de dentro dos olhos. [De resto, é necessário publicitar o meu profundo desacordo com o título da hiperligação, que não espelha o verdadeiro conteúdo do texto.]

das pedras de mau cheiro

Posted in Papel por Hugo Torres em Novembro 13, 2007

‘Fascismo’ e ‘Comunismo’ são cada vez mais subterfúgios que se mandam abaixo a cada argumentação que tende a ir frontalmente contra a verdade instituída. Uma pena. E agrava-se com a idade – dos mais velhos para os mais novos.

do Público

Posted in Papel por Hugo Torres em Novembro 9, 2007

Hoje o Público é da família. Eu assino o meu primeiro artigo, o Samuel mais dois, o Victor outro e, por fim, o Hélder volta a fazer capa do suplemento/ gratuito Sexta e, entre os artigos que assina lá por dentro – adivenhem lá –, está um sobre os portugueses no mundo com foto (grandota) do Larguesa na China. E assim vamos.

Como se diz normalizar em inglês?

Posted in Papel,Política por Hugo Torres em Novembro 8, 2007

Há uns tempos discutia, entre amigos, a ideia de que a União Europeia – e, especificamente, o Processo de Bolonha – acabaria por normalizar os povos do Velho Continente, numa aculturação liderada pelos mais poderosos e submissão dos mais pequenos, que perderiam a identidade. Em grande parte, não concordei. E assim continuo. Mas esta semana recebo a notícia de que, a propósito do Processo de Bolonha, se quer «internacionalizar» os segundos ciclos do Ensino Superior (o mestrado, na antiga hierarquia académica) na Europa, passando as Universidades a ministrar os ditos apenas em inglês.

Ora, se o ajuste formal – na sua linha ideológica de mobilidade de base e apesar da implementação caótica em Portugal – é engolido com algum custo, esta nova promessa desagrada em pleno. Não deixo sequer abertura à discussão. Se quiser frequentar um segundo ciclo em Itália, aprendo italiano. (Reparem: é aprender, faz parte.) Porque é uma opção minha ir e não uma obrigação deles receber-me. A mobilidade não está em causa. E a língua inglesa não pode calcar todas as outras apenas por causa da sua supremacia neste momento da História.

Não tenho qualquer dificuldade com a língua e admito que a maioria também não tenha, ou tenha poucas. Nem sequer é esse o ponto. É a possibilidade da morte de todas as outras nas elites europeias. Não pode acontecer!

Braga, Guimarães, Coimbra, Lisboa, Porto

Posted in Papel por Hugo Torres em Novembro 7, 2007

Desde Agosto. Em verdade, é desde Agosto que não dedico qualquer parte do relógio diário a este meu acanhado espaço. Isto e aquilo. Esta e outra desculpa. Uma boémia, aqueles afazeres. Dedicação mais para ali que para aqui. Enfim. (Tudo questionável.)

Confesso que o que andei mesmo-mesmo a fazer durante estes tempos foi viver mais fora de casa e, essencialmente, do computador. Viver com mais carne. E sangue. Tempo para preguiçar e pensar pouquíssimo em trabalho. Dizem-me que, entretanto, sou finalista de um mestrado – inesperado, incompleto e nunca desejado, se me perguntarem (porque se perguntarem a este camarada, ele dir-vos-á muito mais). Uma semana de seminários e estou acreditado a perceber muito-muito de alguma coisa. Estou a caminho para mestre. (Antes de lhe explicar isto melhor, até a mãe ficou contentíssima.)

Bem, o que importa: estou finalmente a estagiar, na redacção portuense do Público. Desde ontem. A coisa não vai mal e lá para sexta-feira já devo ter um texto a circular, impresso, pelo país (ou melhor: pelo Norte). Nada que não aconteça com toda a gente que por aqui passa. Nada de particularmente exuberante, portanto.

De resto, a dizer que tenho assistido pouco à bola, dada a minha condição de benfiquista; tenho o coração mais-que-aberto a um senhor que já não vai para novo; continuo com as crónicas no ComUM; o Rascunho vai andando; e tive, confesso que inesperadamente, bastante dificuldade em abandonar a casinha bracarense. E prometo mais actividade para os dias.

ComUM: o seguimento de um jornal

Posted in Media,Papel por Hugo Torres em Outubro 9, 2007

Só o meu ego poderia retirar este blogue do seu actual estado de letargia. [Piada parva e desproporcionada.] O que tenho a dizer-vos é pouco. Pelo menos em quantidade: o ComUM, essa tentativa de jornal universitário saída dos guardanapos dos saudosos cafés conjuntos com o Hélder, está de volta e com cara lavada. Com excepção de um semestre, por opção, tomei sempre conta da redacção de cultura do dito. Confesso que me custa, ainda – e neste último mês de seminários pela Universidade –, vê-las de caminho para as reuniões semanais, que agora me deixam à porta. Tudo muda. Em última análise, ainda bem.

Nos dias que correm faço parte de uma outra subespécie dentro do ComUM – os cronistas. Pois bem: comecei hoje mesmo (o novo formato do jornal abriu ontem, com renovado endereço, vejam), o nome fixo da coisa designa-se Il fiore del partigiano, em declarada homenagem à popular italiana Bella Ciao, e sairá às terças-feiras a cada pacote de quinze dias. A primeira versa sobre os grupos culturais da UM – é tudo menos favorável.

(Quanto à fotografia de apresentação: sim, é um cigarro, vazio. Não sou adepto do tabaco, de todo. Apelo constantemente a conduta contrária. Mas a coisa, aqui, é meramente simbólica: é um acto de subversão imagética, assim o vou designar. Porquê? Revi recentemente o Good Night, and Good Luck., do George Clooney, e lembrei a quantidade de regras de ‘boa conduta’ que existem hoje para entrar no ar televisivo. Dou isto: o acto de liberdade de Murrow com um cigarro na mão a confrontar o país via media, confesso-me de novo, atraiu-me.)

« Página anteriorPágina seguinte »