Sozinho a desenhar


Posted in Poesia por Hugo Torres em Abril 20, 2007

seria tão fácil deixar-te, meu Amor, se não existisses
pintava no coração uma saída de emergência, a aquarela, nos tons pálidos do morto
e ia-me embora para as outras florestas do mundo

mas tu, meu Amor, és tão presente como as palavras
e hoje o teu perfume entranhou-se até na mais ordeira das coisas
no quotidiano dos outros, no frenesim das crianças

as minhas pernas gangrenaram, meu Amor
se há coisa que hoje perdi, foi o saber andar
a ver, nem para vagabundo sirvo

Posted in Poesia por Hugo Torres em Março 30, 2007

Sou uma fotografia
morta,
perdida numa película
em desuso.

Se um dia me rebelar,
desenharei
um limite travesso:
o universo redondo
dos sentidos.

Posted in Poesia por Hugo Torres em Janeiro 14, 2007

rebelo-me dos grilhões das nuvens
como se afundasse no mar

sob os olhares crepusculares dos povos

Posted in Poesia por Hugo Torres em Janeiro 8, 2007

a fotografia cansou-se:
o azul ensombrou-se e desatou a chover.

Posted in Poesia por Hugo Torres em Junho 10, 2006

Se o Amor me corrói
mais me hão-de corroer os bichos
da morte,
o esquecimento dos homens.

Cabe-me bem a cabana
suja de papéis.

Muito mar
traga-me a vida.

Posted in Poesia por Hugo Torres em Maio 30, 2006

Pois
que se o arrepio da morte me sabota
a luz da lua
no café
com os pés para a rua
também eu serei um doente com chupeta
surdamente
afagado nas saias da mãe

Posted in Poesia por Hugo Torres em Janeiro 27, 2006

Quanto tempo me leva
escrever um poema,
é quanto tempo me dura
uma paixão,
uma palma escorregadia
a rasgar
um tijolo, uma parede,
o chão:

Leva-me um soluço.

Olá

Posted in Poesia por Hugo Torres em Junho 22, 2005

Quando acordares
diz baixinho: – Olá!,
ao travesseiro.

Olha para o lado:
olha os olhos:
deixa para lá
o travesseiro.

Não: não
lhe digas olá: olha.
E quando olhares muda.
Existem
gestos no meio dos olhos
que sufocam:
repressões sufocam-se.
Matam-se! Assassinas…
Delas.

E eu vivo.
Acordei
e mudei
e não disse olás:
amei olhares
que me fizeram cair
para trás
num sem número de almofadas
forradas a Amor.

Porque dizer e acordar e mudar
e tudo-olás-verbos
não implicam um não-Amor.

Porque esse não está.
E o outro
veio comigo…
E já cá estava.

Há Olhar

Posted in Poesia por Hugo Torres em Junho 12, 2005


coisas perfeitas
redondas
de metal
reluzente


coisas

Estranhas


candeeiros
que não iluminam
à luz
do dia


verdes dançantes
por uma só música
que só eu
posso
ouvir


o sol
que se esconde


paredes-muros
cinzentas
que separam


escadas
que cansam


do outro lado
sorrisos
que abraçam


a luz
sob os gritos
do guarda-sol

Fechado


medos
que engasgam


barrigas
de onde
nascem

Pequenas
coisas
insignificantes

Importantes
insignificantes
coisas


a boca
o umbigo


as máscaras
penetrantes

Olho
adentro


o vidro
sujo

Olhos. Verdes.

Posted in Poesia por Hugo Torres em Maio 25, 2005

Era uma casa

uma casa
com um tecto-
-chão-
-de-outra-casa

Era um gato
que dormia
que comia
ervas
que era preto

Era um sol
que me acordava
os olhos
janela adentro
pelo princípio
da tarde

Era um preto
outro amarelo

Eram imagens
sons

Era:
– Bom dia!

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