Sozinho a desenhar


a cova: céu aberto

Posted in Papel,Post-it por Hugo Torres em Março 10, 2008

Deixo:

Eis o que é a morte: a dor extrema, a dor emudecida. O terror instintivo da morte é uma advertência. Não quero morrer e vou ressuscitá-los! Viver sempre! Amar sempre! Sonhar sempre! (…) Agarro-me a tudo, tudo me prende, o sonho que não existe, as horas inúteis, o possível e o impossível. A floresta não faz parte do meu ser, e eu tenho aqui a floresta, o som e o aroma da floresta, a vida da floresta; o céu não faz parte do meu ser, e eu sou o céu profundo, o céu trágico e o céu esplêndido. Dá-me a vida – dou-te tudo em troca…
(…)
E aqui te faço uma confissão: o que mais me custa a largar é, como à cobra a pele, a vida comezinha. Não, o fim lógico não é morrer, é viver sempre, é ascender sempre. Até onde? Até Deus. Vou ressuscitá-los. Vou ressuscitá-los! E em ele se pondo a caminho vais ver dourado. A vida toma novo impulso. Desaparecendo a morte é que tu abranges a vida. Vais ver a cor que toma o mundo, as tintas que o mundo escorre e as flores que as árvores criam. Vou ressuscitá-los! Vou ressuscitá-los!…

A terra remexe.

BRANDÃO, R. (1991), Húmus. Lisboa: Círculo de Leitores. (Obras Completas de Raul Brandão).

esta ortografia: liberdade

Posted in Léxico,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 29, 2008

Não tenho problemas com o acordo ortográfico proposto para os países de expressão lusófona. No entanto, leio hoje, pela primeira vez nos últimos meses, uma opinião válida e a ter em conta na oposição ao processo. Assina Desidério Murcho, no segundo caderno do Público:

Agora que estamos perante o anunciado facto consumado de mais uma modificação legal da ortografia da nossa língua, que afinal não parece nossa, vale a pena pensar outra vez nesta questão.

Independentemente de saber se a nova ortografia é linguisticamente melhor, ou se há vantagens políticas numa ortografia unificada com o Brasil e os outros países lusófonos, a questão fundamental não parece ter sido discutida. E é esta: até que ponto faz sentido legislar sobre a língua? Devemos legislar exclusivamente sobre aquilo que ficaria pior se não legislássemos. Este é um princípio evidente quando prezamos a liberdade. Mas é claro que a cultura portuguesa nunca foi receptiva à ideia de liberdade, e pelo contrário seguimos o princípio de legislar sobre tudo o que é possível legislar.

Caso o princípio de liberdade estivesse enraizado na nossa cultura, encararíamos com assombro a ideia de fazer leis sobre a ortografia.
Não há tal coisa, tanto quanto sei, nos países de língua inglesa; e no entanto os livros americanos e ingleses circulam entre os dois países sem dificuldade.
A mentalidade salazarista portuguesa é tal que mal se fala de não legislar sobre a língua algumas pessoas imaginam que se trata de cada qual escrever à sua maneira.

Não é disso que se trata, mas antes de permitir que as normas linguísticas evoluam naturalmente, por força das publicações relevantes dos especialistas: dicionários, gramáticas, enciclopédias e outras obras de consulta, além da escrita académica em geral e também da popular, como é o caso dos jornais.

É contraditório defender a evolução natural da língua, e ao mesmo tempo defender a legislação sobre a língua – pois legislar sobre a língua é impedir a sua evolução natural. Sem legislação, certas formas ortográficas e gramaticais serão gradualmente introduzidas, tal como certas palavras são acrescentadas ao léxico; e certas formas ortográficas e gramaticais serão abandonadas, como acontece também com o léxico. Imagine-se o que seria fazer uma lei sobre as palavras que pertencem ou deixam de pertencer ao léxico da língua portuguesa: isso não seria uma contribuição para a evolução natural do léxico. Para a evolução de uma língua ser natural tem de se basear no modo como realmente as pessoas usam a língua, e não no modo como um político qualquer decide que devemos escrever ainda que se rodeie dos melhores linguistas.

Qualquer linguista pode e deve propor as mudanças linguísticas que bem entender; mas propor, escrevendo gramáticas e dicionários, é muito diferente de obrigar-nos legislativamente a escrever “ótimo” em vez de “óptimo”.

A discussão sobre o acordo ortográfico não deve abordar exclusivamente a questão de saber se é linguisticamente acertado ou comercialmente vantajoso. Deve abordar também a questão mais fundamental de saber que tipo de sociedade queremos ser: uma sociedade que preza a liberdade, ou uma sociedade centralista, sufocada por leis sem as quais a vida não seria previsivelmente pior.

sobre andar em volta

Posted in Papel,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 23, 2008

Dar um salto nas manhãs de trabalho a Vila Nova de Gaia tem, na volta, sempre um brinde: poder encarar de frente, ao sol do meio-dia, a Ribeira do Porto, seguindo, a passeá-la até à Foz. A ser possível empacotar, embalar e mostrar o brilho que poucas vezes chega aos meus olhos, uma dessas escassas formas seria aquela.

ribeira_do_porto-por_miguel_afonso.jpg

Here we go up, up, up,
Here we go down, down, down,
Here we go backwards and forwards,
And here we go round, round round. ¹

¹ cf. Alberto Pimenta, 2002. Tijoleira. Lisboa: & etc

da sede, aos 70

Posted in Post-it por Hugo Torres em Janeiro 19, 2008

Maria Leonor Nunes transcreve esta história para o Jornal de Letras, Artes e Ideias n.º973 (p.18):

Era a primeira vez que a carrinha dos livros da biblioteca de Almodôvar se fazia à estrada. Mal chegou ao largo de Santa Clara a Nova – é sempre na praça central das povoações que faz paragem –, aproximou-se uma mulher notoriamente vestida a rigor. Andava pela casa dos 70 anos. Subiu à carrinha, perscrutou as estantes, escolheu três livros: Capitães da Areia, de Jorge Amado, A Selva, de Ferreira de Castro, e Aparição, de Vergílio Ferreira. Sacou o Bilhete de Identidade da mala e apresentou-o para fazer a ficha do empréstimo. Um processo que parecia saber de fio e pavio, para espanto do bibliotecário. A mulher fez então menção de sair, mas antes voltou-se para trás, com os livros na mão, e exclamou: «Esperei 25 anos por este momento». É que tinha sido uma cliente certa das Bibliotecas Itinerantes da Gulbenkian e quando estas acabaram ficou sem leituras.

E continua por aí fora. É, essencialmente, bonito. Mais que a tristeza dos anos magros, saciar é, essencialmente, bonito.

de ver o rio ao amanhecer

Posted in Al Berto,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 14, 2008

Al Berto faria, há poucos dias, 60 anos, se vivo (1948-1997). Li uma ou outra referência ao caso, por aí. Reservei-lhe o dia de hoje. Por razões que se percebem com a primeira linha, dele, que se segue:

14 de janeiro
todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me. desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar? e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz. escrevo com um único fim: salvar o dia.

Al Berto, via vortex; o bold é da responsabilidade do quarto dele

e nós?, hoje

Posted in José Manuel Mendes,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 12, 2008

Da voracidade de que a Eduarda fala aqui, que me afecta de tempos a tempos, sai:

Estes meses de lonjura desembravecida. De como os homens são capazes de mudar o mundo. A Pátria em discussão, mal-grado os axiomas. Um povo homiziado, um destino a torcer. O combate múltiplo pela fraternidade. A utopia eufórica duma construção: o homem igual ao homem.

José Manuel Mendes, Ombro, Arma!, Lisboa, Círculo de Leitores, 1991, p.144

Ainda «o Pacheco»

Posted in Luiz Pacheco,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 11, 2008

Na edição de hoje do Sexta, Cabral Nunes, o editor último da Comunidade do Pacheco, com serigrafias do Cruzeiro Seixas, volume lançado em Novembro último pela Perve, escreve assim sobre os derradeiros dias do «libertino»:

Obrigavam-no, a ele, Príncipe entre plebeus, a viver os seus últimos dias sob a ditadura da misericórdia, assim mesmo, com ‘m’ minúsculo que bem podia ser de merda de país, de gente entaramelada sabendo pouco mais que nada, de si, do mundo, julgando-se mais, até por isso mesmo, capaz da suprema desfaçatez que só a ignorância permite: a ocultação da luz interior.

este poeta, esta militância

Posted in Post-it por Hugo Torres em Janeiro 7, 2008

Sofro, noite!

Não as dores metafísicas que os homens suam nas estrelas
para enfeitarem a fome da aristocracia das nuvens.
Não o terror súbito de nos vermos sozinhos na terra
sem uma voz nos astros que nos diga: «Cá estamos nós também!»
Não a tortura de saber se existe ou não existe
um Deus de carne igual à nossa a dar ordens às pedras.
Não a agonia dos lamentos que saem dos poços para o céu
e erram de árvore em árvore, de monte em monte, de corola em corola
com lobos voadores nos uivos dos vendavais.
Não o suor dos anjos na via láctea. O anseio do infinito. A angústia da sombra sem raízes.
Não o sufocar da treva no corredor cada vez mais estreito, cada vez mais estreito, cada vez mais estreito…
Não o assombro dos lírios negros. O gemer das almas nos cruzeiros
e todos os sofrimentos da lua habitada por fantasmas…

…Mas por outras razões mais desesperadamente vis,
mais limitadamente exíguas e directas,
como esta mulher de xaile aqui na minha frente
a sofrer o mistério da fome
perdida na noite imensa,
na noite inquieta,
na noite absurda
cheia de crianças a chorar
lágrimas para além das estrelas,
ah! mas mais profundas e eternas
do que todos os mistérios do universo
com o céu e o inferno dentro da cabeça dos homens.

Lágrimas! – ouviste, noite?

Lágrimas de crianças espantadas de haver olhos sem lágrimas na vida.
Lágrimas de carne humana a rasgarem o frio dos penedos
e a molharem de lume o clamor dos bichos
presos à solidão da terra.

Lágrimas, ouviste?

Ah! poetas: não olhemos mais para o céu.
Deixemos os mistérios para depois
quando não houver na noite
outras razões de sofrer mais vis.

Não olhemos mais para o céu!

Abaixo as estrelas, a lua, a via láctea
e todo esse espectáculo de luzes
como um candelabro de cometas
a iluminar a festa da miséria
no palácio do mundo.

Abaixo os astros! Essas caricaturas das lágrimas dos homens
de propósito belas e suspensas
para nos esquecermos das outras
que nos doem, nos olhos,
a inutilidade de chorar.

Lágrimas – ouviste, noite?
Lágrimas de grito!
Lágrimas de beber!

José Gomes Ferreira, Poeta Militante – 1.º Volume, Lisboa, D. Quixote, 1990, pp. 100-102

instantes de autocarro

Posted in Papel,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 2, 2008

Li pela primeira vez este poema, abaixo transcrito, a abrir um livro de crónicas de Joaquim Fidalgo, precisamente com o nome A Surpresa dos Instantes (2000). É da Sophia e está no primeiro tomo de versos desta menina do sol, da terra e do mar. E do branco. Nunca fui seu admirador profundo. Mas hoje a edição definitiva de Poesia (Caminho, 2003, mas antes em 1944) abriu-se nas minhas mãos: os temores de desinteresse seguem marcha, salvo uma ou outra excepção.

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.

«Quantos cegos serão precisos para fazer uma cegueira?»

Posted in José Saramago,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 2, 2008

«(…) cegos, simplesmente cegos, cegos sem retóricas nem comiserações, o mundo caridoso e pitoresco dos ceguinhos acabou, agora é o reino duro, cruel e implacável dos cegos (…)»

José Saramago, Ensaio Sobre a Cegueira, Lisboa, Caminho, 1995, p.135

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