Sozinho a desenhar


Posted in Papel por Hugo Torres em Janeiro 15, 2008

Encontrei os desejos para 2008: passos em frente.

Obrigado pela dica, Herberto.

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de ver o rio ao amanhecer

Posted in Al Berto,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 14, 2008

Al Berto faria, há poucos dias, 60 anos, se vivo (1948-1997). Li uma ou outra referência ao caso, por aí. Reservei-lhe o dia de hoje. Por razões que se percebem com a primeira linha, dele, que se segue:

14 de janeiro
todo o santo dia bateram à porta. não abri, não me apetece ver pessoas, ninguém.
escrevi muito, de tarde e pela noite dentro.
curiosamente, hoje, ouve-se o mar como se estivesse dentro de casa. o vento deve estar de feição. a ressonância das vagas contra os rochedos sobressalta-me. desconfio que se disser mar em voz alta, o mar entra pela janela.
sou um homem privilegiado, ouço o mar ao entardecer. que mais posso desejar? e no entanto, não estou alegre nem apaixonado. nem me parece que esteja feliz. escrevo com um único fim: salvar o dia.

Al Berto, via vortex; o bold é da responsabilidade do quarto dele

«Record Label: unsigned»

Posted in Pauta por Hugo Torres em Janeiro 13, 2008

Que o mundo é pequeno e de demais juízos sociais, já tínhamos conhecimento. Contudo, é sempre giro ver o denominador comum de dois pedaços de planeta que pensávamos tão díspares. (Ou que nunca considerámos juntos. Adiante.) Aí está ele, aí em baixo, no vídeo, protagonizado pelo bom amigo de início de tempos universitários, o Estevão (Gomes), mais «o Né», de Vila do Conde, conhecido por amigos presentes de outros relógios, de outras coordenadas, a dar música às gentes com o – agora – duo The Portugals. O tema chama-se Give it to me. Vale a pena a música, mas também o vídeo, filmado em Braga. Segue:

e nós?, hoje

Posted in José Manuel Mendes,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 12, 2008

Da voracidade de que a Eduarda fala aqui, que me afecta de tempos a tempos, sai:

Estes meses de lonjura desembravecida. De como os homens são capazes de mudar o mundo. A Pátria em discussão, mal-grado os axiomas. Um povo homiziado, um destino a torcer. O combate múltiplo pela fraternidade. A utopia eufórica duma construção: o homem igual ao homem.

José Manuel Mendes, Ombro, Arma!, Lisboa, Círculo de Leitores, 1991, p.144

Ainda «o Pacheco»

Posted in Luiz Pacheco,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 11, 2008

Na edição de hoje do Sexta, Cabral Nunes, o editor último da Comunidade do Pacheco, com serigrafias do Cruzeiro Seixas, volume lançado em Novembro último pela Perve, escreve assim sobre os derradeiros dias do «libertino»:

Obrigavam-no, a ele, Príncipe entre plebeus, a viver os seus últimos dias sob a ditadura da misericórdia, assim mesmo, com ‘m’ minúsculo que bem podia ser de merda de país, de gente entaramelada sabendo pouco mais que nada, de si, do mundo, julgando-se mais, até por isso mesmo, capaz da suprema desfaçatez que só a ignorância permite: a ocultação da luz interior.

cinema, ali, daqui para a frente

Posted in Papel,Película por Hugo Torres em Janeiro 11, 2008

Descobri o que fazer com a página de cinema. Em 2008, vai ser assim: ficam registados todas as idas ao cinema, as visitas ao DVD sempre que possível e as emissões de televisão que justifiquem a memória.

De resto, e além das vontades claras para ver na tela durante o ano, que ainda são algumas e não vou enunciá-las a todas, fica agora expresso um formigueiro, em versão trailer: Juno, não apenas pelo filme que promete ser – seguindo a linha de comédia inteligente de Little Miss Sunshine –, mais prémios e nomeações que já conta, mas também pela actriz principal, Ellen Paige, admiração pessoal desde Hard Candy.

um, Sexta

Posted in Luiz Pacheco,Papel por Hugo Torres em Janeiro 10, 2008

Procurei, procurei, uma manhã inteira nisso, a procurar, na Baixa do Porto, livraria sim, alfarrabista sim, e encontrei um único – UM ÚNICO! – exemplar de Luiz Pacheco: Pacheco versus Cesariny (ed. Estampa, 1974). Fui em reportagem, a ver. Dois dias depois, já cidadão igual aos outros, não resisti. Fui lá e comprei-o. Na Poetria, ao pé do Teatro Carlos Alberto.

O resto conta-se amanhã, no Sexta, onde volto a partilhar páginas impressas com este camarada, com carinho e muito gosto.

este poeta, esta militância

Posted in Post-it por Hugo Torres em Janeiro 7, 2008

Sofro, noite!

Não as dores metafísicas que os homens suam nas estrelas
para enfeitarem a fome da aristocracia das nuvens.
Não o terror súbito de nos vermos sozinhos na terra
sem uma voz nos astros que nos diga: «Cá estamos nós também!»
Não a tortura de saber se existe ou não existe
um Deus de carne igual à nossa a dar ordens às pedras.
Não a agonia dos lamentos que saem dos poços para o céu
e erram de árvore em árvore, de monte em monte, de corola em corola
com lobos voadores nos uivos dos vendavais.
Não o suor dos anjos na via láctea. O anseio do infinito. A angústia da sombra sem raízes.
Não o sufocar da treva no corredor cada vez mais estreito, cada vez mais estreito, cada vez mais estreito…
Não o assombro dos lírios negros. O gemer das almas nos cruzeiros
e todos os sofrimentos da lua habitada por fantasmas…

…Mas por outras razões mais desesperadamente vis,
mais limitadamente exíguas e directas,
como esta mulher de xaile aqui na minha frente
a sofrer o mistério da fome
perdida na noite imensa,
na noite inquieta,
na noite absurda
cheia de crianças a chorar
lágrimas para além das estrelas,
ah! mas mais profundas e eternas
do que todos os mistérios do universo
com o céu e o inferno dentro da cabeça dos homens.

Lágrimas! – ouviste, noite?

Lágrimas de crianças espantadas de haver olhos sem lágrimas na vida.
Lágrimas de carne humana a rasgarem o frio dos penedos
e a molharem de lume o clamor dos bichos
presos à solidão da terra.

Lágrimas, ouviste?

Ah! poetas: não olhemos mais para o céu.
Deixemos os mistérios para depois
quando não houver na noite
outras razões de sofrer mais vis.

Não olhemos mais para o céu!

Abaixo as estrelas, a lua, a via láctea
e todo esse espectáculo de luzes
como um candelabro de cometas
a iluminar a festa da miséria
no palácio do mundo.

Abaixo os astros! Essas caricaturas das lágrimas dos homens
de propósito belas e suspensas
para nos esquecermos das outras
que nos doem, nos olhos,
a inutilidade de chorar.

Lágrimas – ouviste, noite?
Lágrimas de grito!
Lágrimas de beber!

José Gomes Ferreira, Poeta Militante – 1.º Volume, Lisboa, D. Quixote, 1990, pp. 100-102

«Acima de tudo, a liberdade»

Posted in Luiz Pacheco,Papel por Hugo Torres em Janeiro 6, 2008

Somos tanto o retrato das pessoas por quem nos apaixonamos que, quando essas morrem, nos levam o estômago para a cova.

luiz_pacheco.jpg

Luiz Pacheco (1925-2008)

instantes de autocarro

Posted in Papel,Post-it por Hugo Torres em Janeiro 2, 2008

Li pela primeira vez este poema, abaixo transcrito, a abrir um livro de crónicas de Joaquim Fidalgo, precisamente com o nome A Surpresa dos Instantes (2000). É da Sophia e está no primeiro tomo de versos desta menina do sol, da terra e do mar. E do branco. Nunca fui seu admirador profundo. Mas hoje a edição definitiva de Poesia (Caminho, 2003, mas antes em 1944) abriu-se nas minhas mãos: os temores de desinteresse seguem marcha, salvo uma ou outra excepção.

Pudesse eu não ter laços nem limites
Ó vida de mil faces transbordantes
Pra poder responder aos teus convites
Suspensos na surpresa dos instantes.

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